Quem mora na Vila conhece os caboclos, já dizia João Saldanha, nosso eterno guru do futebol, jornalista, poeta, escritor, pensador e mais um punhado de coisas. Sabia como ninguém comandar e liderar, com habilidade para ensinar e se fazer ouvir.
Quem convive com o bem e o mal, em algum momento da vida buscará nesse aprendizado alguma forma de proteção, como pregava o compositor Billy Blanco no seu samba “Canto Chorado”, com o refrão “o que dá pra rir dá pra chorar”, sucesso em 1969.
Saldanha, gaúcho de Alegrete (RS) morreu aos 73 anos e Billy Blanco, que nasceu em Belém do Pará nos deixou aos 87. De ambos, muita saudade. Para rir ou chorar daquilo que está ao nosso redor é preciso, no mínimo, ter passado por alguns episódios. Os da ribalta pra enaltecer, os de angústia pra esquecer.
Quem sai aos seus não degenera, diz a crença popular. No histórico glorioso dos nossos dois ícones aqui citados, até que se prove em contrário, nada foi degenerado, e ambos selaram páginas felizes na nossa história. Na biografia de alguns políticos dos dias de hoje, caboclos de algumas vilas não tão confiáveis, quase sempre o sorriso vem primeiro.
Mas são visíveis os sinais de que lágrimas podem pintar por aí. Salta aos olhos, com se fossem rojões de noite de São João, a evidente derrocada e o esfacelamento do que era antes a chamada força bolsonarista, que de punho cerrado socava o ar, inflama as massas em praça pública e pedia a cabeça de adversários espetadas em lanças afiadas.
As motos turbinadas estão com os pneus vazios, os jet skis estão cobertos de lonas nas garagens e sair por aí montados em cabo de vassouras como se fossem cavalos, nem pensar. Negar as evidências é contrariar a lógica, não projeta resultados.
Com escoriações generalizadas, quer queiram admitir ou não, o fato é que a tropa de choque que o capitão imaginava ter capacidade para bem representá-lo aqui fora, enquanto amarga a solidão do cárcere, parece cada dia mais frágil.
Alguns tropeçam nas pernas, e como sonâmbulos vagueiam por aí, buscando abrigo onde faltam telhas. Outros, ainda sustentados pela arrogância e empáfia, caminham cegos como penitentes, apostando alto em teses absurdas como anistia, anulação de penas, indultos e coisas do gênero.
Há também os que acreditam nas esbaforidas gritarias do Pastor Malafaia, pedindo justiça e desacreditando autoridades. A credibilidade dele resvala no zero. Buscando na prateleira de apoio, alguns nomes em que Bolsonaro depositava crenças, outro fiasco.
O filho pródigo que jurava ter a benção do Governo americano (Trump), para içar o pai a estrela de primeira grandeza viu o sonho ruir, e hoje esboça uma tímida reação, se apresentando agora como aquele atacante que perdeu um pênalti. Além do fracasso de Eduardo, Jair Messias também enfrenta dificuldades para administrar a relação entre a mulher Michelle e os irmãos zangados, fato que gera um ranço constrangedor, que afasta, desagrega e, por tabela, dá munição ao adversário que tripudia sem parar, como tem que ser.
O anúncio da candidatura do filho Flávio à presidência da república, feita quase que sob sigilo, atiçou rivalidades e fez subir a temperatura entre os já pretensos candidatos ao cargo.
Gesto que, uma vez mais, escancarou o amadorismo e a falta de preparo na condução de um processo que, à luz da razão, poderá definir a carreira dos envolvidos. Radicais, e sem esconder sinais de agressividade, uma lista interminável de “aliados” do capitão não economizam nas trapalhadas para prejudicá-lo. Às vezes inocentes, quase sempre inúteis.
Estranhamente unidos, sabe-se lá como e porque, os governadores Ronaldo Caiado (GO), Romeu Zema (MG) e Ratinho Júnior (PR) , sem constrangimentos, declaram apoio a candidatura de Flávio Bolsonaro ao cargo que eles também almejam, e se acham habilitados a disputar.
O cinismo no mundo político não chega a ser coisa rara. Mas, convenhamos, quando a esmola é demais até o santo desconfia. O número de pessoas sérias que acreditam nessa ópera bufa cabe numa van, e muitos antes mesmo do embarque já anunciam data e hora de sumiço.
Tidos como mais habilidosos, experientes e vacinados contra as tramóias e as armadilhas políticas, raposas felpudas como o Governador Tarcísio de Freitas, Senador Ciro Nogueira, o folclórico Magno Malta e o sonolento Senador Rogério Marinho, preferem agir na surdina e, encastelados, lançam um ar de superioridade ao demais submissos, como se o controle das operações futuras caberá a eles, e a ninguém mais. Um resumo objetivo de todo esse roteiro
de novela nos arremete para um monte de incertezas, perguntas sem respostas.
E no topo dessa montanha temos um líder combalido e debilitado, aliados que só defendem o próprio umbigo e se atracam nos bastidores em busca em ribaltas, e a contragosto, semana após semana, são submetidos a leitura dos institutos de pesquisa, sempre mantendo Lula e o PT nas primeiras posições. Ainda há milhas a percorrer, e sabemos nós que o inusitado não marca hora para se apresentar.
Inelegível, com a saúde precária, condenado, encarcerado e afastado do convívio familiar e social, Bolsonaro, gostando ou não, terá que se habituar e aceitar uma coisa que, ao longo da vida parece ter ignorado; ouvir quem lhe peça, ou implore, o saudável aconselhamento a prática do bom senso.
Pode vir desse pacote algumas linhas pinçadas, ou parecidas, com a poesia musicada do saudoso Belchior. Alguém que lhe explique que já não há muito tempo pra tanta incerteza, que não desperdice a vida. Antes que acabe sorte, ou coisa parecida.
José Natal
Jornalista

