Má gestão faz da Câmara um espantalho cheio de pássaros, por José Natal

Por José Natal

Há quem diga, com acentuada dose de ironia, que o deputado Hugo Motta, ao assumir a Presidência da Câmara dos Deputados, em fevereiro deste ano, tinha em mente que para ele Brasília tinha o peso político de João Pessoa, capital de seu estado, e o Brasil era o seu universo particular.

Não vai aqui nenhum desrespeito a agradabilíssima Capital nordestina, nem ao Estado paraibano, xodó das tradições brasileiras, querido e amado por quem o conhece e o visita. Trata-se apenas, e com isso todos concordam, de uma aparente falta de dimensionamento da grandeza que o ato representa.

Segundo especialistas, e na leitura de quem entende de ciência política, Motta parece ter um dia sonhado ser piloto de Fórmula Um, mas na auto-escola se limitou a aprender a dirigir veículos para amadores. Fácil entender a avaliação pessimista, ou negativa, que alguns fazem do parlamentar.

Numa filtragem honesta, e severa, das atitudes e providências adotadas por ele no comando da casa, desde sua posse, a contagem de pontos não lhe dá o conforto de continuar na série A, fosse isso uma competição esportiva. Ali, para se manter no posto, se exige coerência, competência e coragem para atacar, e requer sabedoria e estatura para se defender. Quesitos, pelo que se nota, em falta na prateleira de consumo diário do Presidente da Câmara.

É visível, e quase palpável, a dificuldade do parlamentar no tratamento de questões de importância fundamental para o bom andamento do ambiente político e institucional, muitas vezes gerando reações incrivelmente desproporcionais, com reflexos no parlamento e outros poderes. Hoje com 36 anos (nasceu em 11 de setembro de 1989), Hugo Motta é o mais novo Deputado a ocupar a
presidência da casa.

Antes dele, com 39 anos, e conceituação política infinitamente diferente, Luis Eduardo Magalhães, precocemente falecido em 12 de abril de 1998, ocupou o cargo de 2 de fevereiro de 1995 a 5 de fevereiro de 1997, enaltecido a época por seus colegas de Governo e oposição, como talentoso e sensível às demandas do parlamento.

No cargo desde o começo do ano, Motta (que também é médico), parece não ter encontrado ainda os mecanismos de ação, que o retire de uma constante e insistente turbulência administrativa, sempre às voltas com atitudes que demonstram, às vezes insegurança e às vezes imaturidade. Não raro as duas coisas ao mesmo tempo.

Episódios recentes, como aqueles da ocupação da mesa da presidência da casa, e a decisão de votação de pedidos de cassação de parlamentares de forma açodada e desprovida de justas argumentações estão frescas na memória de quem trafega pelo universo político. Também estão no painel de lembranças de quem acompanha o dia a dia do plenário e seus integrantes, as cenas de gestos agressivos do deputado Glauber Braga, quando, em protesto, se apoderou da cadeira da presidência. Mesmo sem o DNA de sua culpa no apagão das câmeras de filmagens do plenário da casa, cenário de tumulto, sopapos e outras “gentilezas” inéditas em ambiente onde se prega a harmonia, a digital de comando será sempre dele. Ou por descaso, ou por omissão.

Como sempre acontece, e como tem que ser, a tropa de choque em defesa da causa atua em todas as frentes. Começa pelos fortões da equipe de segurança da casa, com fama juramentada de desconhecer qualquer forma de gentileza, e se preciso for, utiliza até a força física sem medir consequência.
O corporativismo por ali, quando se trata de defender território abrangente, é impecavelmente eficiente. Ao contrário do que muitos imaginam, nada disso é encarado com muita preocupação.

O palco aceita atores de todas as vertentes, e por mais que a mídia insista em escancarar verdades secretas, a indignação não dura mais do que algumas horas. Saudosistas, ou iludidos como alguns são taxados, lamentam que o local que deveria ser um verdadeiro e real espantalho de mazelas e aves rapinas, cada vez mais as recebam com simpatia singular, e comoventes votos de boas vindas.

Como de hábito, em todo País democrático, os debates, análises e decisões que visem o bem comum da sociedade começam pela Câmara dos Deputados, e de lá seguem seu curso. Motivo mais do que essencial e obrigatório para que haja, por parte de quem a comanda, se apodere de reflexões, autocrítica e busque no balaio de informações alguns rabiscos que lhe sirvam de orientação, bom senso e, mais do que nunca, eficiência e gestão imparcial.

Empossado no cargo afirmando ser profundo admirador, e um dedicado seguidor dos ensinamentos de Ulysses Guimarães, exemplo inigualável do político brasileiro, Hugo Motta deve ter entendido bem o que isso representa. Para que transforme esse desejo em realidade, ainda que lhe faltem algumas horas de jornada, talvez décadas. O tempo dirá.

 

José Natal
Jornalista
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