O doentio colonialismo mental americano, por Paulo Roberto Cannizzaro

 

Paulo Roberto Cannizzaro* 

 

É óbvio que toda generalização é abusiva, mas há dados sociais reais que são incontestáveis. O desejo de tantos brasileiros é que fôssemos como os Estados Unidos, ser como eles seria o eldorado social. Devíamos ter a mesma identidade e seus costumes. Pobre dos que ainda pensam isso, e escolhem a vida americana como um bom exemplo.

Creiam, a sociedade americana é um modelo inteiramente esgotado, não serve de exemplo, não só para a sociedade brasileira, mas para nenhum lugar. Socialmente a vida americana está estruturada sobre três pilares essenciais, afirmam pensadores contemporâneos respeitáveis: a) Um individualismo absurdo e intenso; b) A produtividade, como medida do valor mais essencial; c) A capacidade de consumo extremo, como expressão de identidade e de “sucesso pessoal”.

Nesse ambiente social, declaradamente doentio, quem não tiver capacidade de consumo, com todos os seus exageros, quem durante a vida não for um tremendo “sucesso material”, ou se não ficar rico na América, socialmente é considerado um fracasso, um ser medíocre.

Por isso o cidadão americano, mas do que em qualquer outro lugar, sofre uma pressão produtiva insuportável, carregada de tensão existencial. Bem menos, por exemplo, do que um cidadão mediano europeu, motivado por outros valores e aspirações culturais, a despeito dos problemas da Europa.

Mas o campo do consumo americano, extremamente elevado à condição de eixo central da vida social, se transformou em estrutura de subjetivação. No imaginário nacional americano o consumo é mais do que um ato, ou uma capacidade, é sobretudo um marcador de identidade, de pertencimento e de afirmação de sucesso pessoal.

O cidadão é aculturado desde criança para posses materiais extremas, para marcações e sinais da alta produtividade, para mercado, ações, capital, poder financeiro, e isso é tão insano que tem provocado um agravamento de “Mortes por desespero”, título do magnífico livro de Angus Deaton (Deaths of Despair and The Future of Capitalism), que relata disfunções do capitalismo, e mais grave, por mortes consumadas nesse ambiente avassalador, seja por tristeza profunda, com abuso de drogas, alcoolismo, depressão, opiodes de todo tipo, medicamentos, enfim, tudo em decorrência de pressões sociais e econômicas.

Assim a probabilidade de um jovem morrer cedo por lá, até por suicídio, pode ser potencialmente, por exemplo (não se assuste) maior do que num país qualquer da África. Veja que contrassenso. A vida americana tem extrema dificuldade de promover saúde mental, e de estímulos de felicidade contínua para grande parte das pessoas. Por isso, cabe perguntar: Isso é modelo de sociedade “desenvolvida”, mas para quem? Para o Brasil? Claro que não. Não é essa nossa régua como sociedade. Não é isso que se quer. Não é essa a nossa identidade nacional, em que o valor fundamental são os estímulos de posses do “sucesso”.

Essa competição, a necessidade do “sucesso”, solicita o extremo dos indivíduos, tantas vezes além do que eles podem. Por isso o ethos americano, o conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), nas características da coletividade americana é tão doentio, pede-se que o sujeito se transforme em maquinarias de performance contínua. E sem “sucesso” alcançado, sem conseguir ser rico, seguramente, um jovem americano será excluído socialmente, taxado de ser fracassado.

Ser rico não é um fim, tampouco propósito da vida, mas num ambiente social doentio é o principal “valor e desejo fundamental”. Mas ninguém vive só por seus bens. Nesse estado mental o consumo se converte em critério moral e emocional, uma tentativa de produzir sentido, significado e pertencimento.

Enquanto o consumo ocupar um lugar de dimensões fundamentais o adoecimento emocional, mental, espiritual, tende a se agravar, sobretudo na sociedade americana. E aqui, tolos, ainda acham que precisamos copiar o modelo americano, ou que Nova York é a terra prometida, ou fazer compras em Miami deve ser o grande encantamento das nossas aspirações.

O Brasil precisa de se libertar desse colonialismo mental. Não somos o Estados Unidos que não deu certo, tampouco uma nação de quinta categoria. Seguramente, nunca precisaremos ser como eles. Se desvencilhar dessa ideia que eles são nosso modelo de vida social é fruto desse colonialismo mental. Tampouco devemos marcar a métrica do que eles chamam de “sucesso material”, e que ela seja o monovalor da vida.

Trump é o próprio sintoma de uma doença bem mais profunda que atinge a sociedade americana, enquanto as “mortes por desespero” por lá, estão aumentando aceleradamente, muito menos divulgadas do que está acontecendo, principalmente entre os jovens e a classe trabalhadora que sonha com as posses da elite.

Aqui, temos problemas, mais há outros valores nacionais e uma identidade bem mais rica, diversa e autêntica. Acredite, somos melhores. O Brasil mora melhor em cada um, a despeito de tantos problemas. Como dizia Darcy Ribeiro: uma “Roma tropical” e mestiça. Essa é a nossa cor.

 

*Paulo Roberto Cannizzaro é consultor empresarial e escritor
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Luciana Leão

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