COLUNA PAPO DE ECONOMIA
Por Paulo Galvão Júnior*
Reflexão no bicentenário de Dom Pedro II
No bicentenário do nascimento do Imperador Dom Pedro II, impõe-se a reflexão sobre a necessidade de pensar o Brasil para além dos ciclos políticos e dos interesses particulares ou familiares. Mais do que buscar ganhos imediatos ou estratégias orientadas exclusivamente à reeleição, o país precisa reafirmar um compromisso com políticas econômicas de longo prazo, capazes de elevar a produtividade, modernizar o Estado e fortalecer a capacidade nacional de desenvolvimento.
Esse marco histórico deve servir como convite à construção de um projeto de nação sustentável, estável e orientado ao futuro. Para isso, é necessário romper com a tradição de respostas imediatistas e avançar na formulação de políticas públicas com horizonte de décadas, e não apenas de mandatos presidenciais.
Construção de um projeto nacional de desenvolvimento
Trata-se, portanto, de conceber um projeto capaz de inserir o Brasil no seleto grupo de nações desenvolvidas de dimensão continental, como Canadá, EUA e Austrália. A construção desse caminho exige um diagnóstico crítico e realista da economia brasileira, hoje marcada por desaceleração, juros elevados, inadimplência crescente e níveis preocupantes de endividamento. Somente enfrentando esses entraves estruturais o país poderá projetar um futuro compatível com seu vasto potencial econômico, territorial, populacional, social, cultural e ambiental.
Juros entre os mais altos do mundo
Atualmente, com a taxa Selic fixada em 15,00% ao ano, o Brasil possui a quarta maior taxa nominal de juros do mundo, atrás de Turquia (39,50%), Argentina (29,00%) e Rússia (16,50%), segundo levantamento da MoneYou. No ranking de juros reais, ocupa a segunda posição global, com 9,74%, ficando atrás apenas da Turquia, que registra 17,80%.
Os juros elevados produzem efeitos diretos sobre famílias, empresas, cooperativas e demais agentes econômicos. Encarecem todas as modalidades de crédito, restringem investimentos, limitam consumo de bens e serviços e se consolidam como um dos principais entraves ao crescimento do PIB e do PIB per capita.
Inadimplência e endividamento em níveis críticos
Como consequência desse ambiente financeiro adverso, o Brasil enfrenta um quadro de inadimplência elevada e endividamento alarmante.
Os dados recentes são contundentes:
• 79,1 milhões de brasileiros negativados (Serasa, setembro/2025);
• 79,5% das famílias endividadas (CNC, outubro/2025);
• 8 milhões de empresas com restrições de crédito (Serasa, setembro/2025).
A combinação de crédito caro, renda comprimida e inflação relativamente alta fragiliza o consumo, reduz investimentos privados, compromete a segurança financeira das famílias e limita a capacidade de operação das empresas. Não surpreende que o PIB brasileiro tenha crescido apenas 0,1% no terceiro trimestre de 2025, segundo o IBGE.
O nó dos juros e o nó do crédito
A economia brasileira enfrenta dois grandes entraves: o nó dos juros e o nó do crédito. A taxa Selic, embora necessária para o controle da inflação, mantém o país sob forte restrição financeira, tornando o acesso ao financiamento proibitivo para grande parte das famílias e empresas. A política monetária contracionista inviabiliza ações fundamentais, como capitalização empresarial, financiamento de investimentos, reorganização orçamentária familiar e renegociação de dívidas.
O custo financeiro elevado corrói margens, contrai o consumo e reduz a capacidade produtiva nacional. Forma-se um ciclo vicioso: juros altos aumentam a inadimplência; a inadimplência elevada serve de justificativa para manter juros ainda mais altos.
Impactos sobre empresas e famílias
No ambiente empresarial, os mais de 8 milhões de CNPJs negativados enfrentam severas restrições para adquirir insumos, renovar estoques, financiar fornecedores e viabilizar investimentos. Isso paralisa cadeias produtivas, reduz empregos formais e prejudica a produtividade e a competitividade.
Entre as famílias, os 79 milhões de consumidores negativados enfrentam dificuldades cotidianas, como restrições para alugar imóveis, contratar serviços essenciais, acessar financiamentos ou manter atividades empreendedoras.
A inadimplência elevada torna-se um entrave concreto ao crescimento da 11ª maior economia do mundo, com PIB nominal de US$ 2,256 trilhões no 1º semestre de 2025 (FMI), e da sétima nação mais populosa, com 213,4 milhões de habitantes (IBGE).
O peso do endividamento familiar
O nível de endividamento familiar de 79,5% em outubro de 2025 é ainda mais preocupante diante da predominância de dívidas em modalidades de juros elevados, especialmente o cartão de crédito. O peso das parcelas compromete orçamentos, limita o planejamento financeiro e aprofunda a dependência de crédito emergencial.
Um país com crédito caro e inacessível limita sua própria capacidade produtiva. Investimentos exigem financiamento previsível; inovações dependem de capital; e a expansão de micro, pequenas e médias empresas, responsáveis por mais de 70% dos empregos formais, requer acesso a crédito sustentável.
Efeitos sobre o crescimento econômico
Com juros altos, inadimplência crescente e endividamento recorde, os impactos são imediatos: queda do consumo, retração do investimento produtivo, menor arrecadação, perda de produtividade e redução da competitividade internacional.
Há consenso entre economistas de que desatar os nós dos juros e do crédito liberaria bilhões de reais para consumo e investimento produtivo, impulsionando o PIB e recolocando o Brasil em uma trajetória mais robusta de crescimento econômico.
Reformas estruturais e modernização financeira
O cenário atual revela um país que cresce muito pouco, apesar de seu potencial extraordinário. Superar tais distorções — por meio de reformas estruturais, ampliação da concorrência bancária, modernização do sistema financeiro, acesso à Educação Financeira e eventual política monetária expansionista, não é apenas recomendação técnica: é urgência econômica.
Um país com crédito saudável produz, inova, investe e prospera. Se o Brasil vencer os nós dos juros e do crédito, poderá iniciar, a partir de 2026, uma trajetória de crescimento mais vigorosa e socialmente inclusiva.
Perspectivas para 2026: um ano de múltiplos desafios
Diante desse quadro desafiador, torna-se essencial que a taxa Selic seja reduzida na próxima reunião do COPOM como passo inicial para uma política monetária expansionista, capaz de sustentar a recuperação econômica.
Os consumidores adimplentes, que vêm ajustando seus orçamentos há anos, devem se preparar para um 2026 desafiador, marcado pela Copa do Mundo no Canadá, EUA e México simultaneamente; eleições presidenciais polarizadas; possíveis eventos climáticos severos; desaceleração da economia brasileira; questões relacionadas à saúde da população idosa; e a continuidade da guerra comercial dos EUA contra diversos países, incluindo Canadá, México e Brasil — tudo isso no ano em que se comemoram os 250 anos de “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, economista escocês, pai da economia moderna e do liberalismo econômico, e grande defensor do livre comércio.
Orientação aos consumidores endividados
Já os consumidores inadimplentes e endividados precisam, urgentemente, renegociar dívidas, reorganizar orçamentos, reduzir custos, aumentar renda e retomar gradualmente o consumo consciente e o crédito responsável, evitando agravamento da fragilidade financeira em um ano que tende a ser ainda mais desafiador.
(*) Economista brasileiro. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.
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