Agricultura familiar e sociobiodiversidade ganham protagonismo na alimentação da COP30

Profissionais de Nutrição, agricultores familiares e povos tradicionais mostram que alimentar bem também é enfrentar a crise climática

Belém (PA) – Na COP30, a alimentação deixou de ser apenas um apoio logístico para se tornar um eixo central da agenda climática. E, no coração dessa transformação, o trabalho da Nutrição ganhou destaque. Responsável técnica pela cozinha da Cúpula dos Povos, a nutricionista Ana Paula da Silva Ferreira coordenou a oferta de refeições para mais de 100 mil pessoas, mostrando que a integração entre qualidade nutricional, agroecologia e sociobiodiversidade é não só viável, mas essencial para a construção de sistemas alimentares sustentáveis.

“A importância do nutricionista nesse processo é garantir soberania e segurança alimentar, respeitando o território e a cultura local, e mostrando que é possível oferecer alimentação saudável e agroecológica em grande escala, com o menor impacto ambiental possível”, afirma.

A experiência conduzida por Ana Paula, que já atuou em grandes cozinhas ligadas a movimentos sociais e projetos coletivos em parceria com a Fiocruz, reforça que cozinhas de grande porte são também espaços educativos. Nelas, nutricionistas orientam equipes, asseguram padrões sanitários, planejam o uso de água e energia e organizam fluxos que reduzem resíduos e impactos ambientais, produzindo não apenas refeições, mas conhecimento e cuidado que permanecem nos territórios.

Ana Paula da Silva Ferreira – Nutricionista (Arquivo pessoal)

Uma proposta que nasce do território

Pela primeira vez em uma Conferência do Clima, a alimentação servida foi planejada para valorizar a produção local, priorizando a agricultura familiar, práticas agroecológicas e ingredientes da sociobiodiversidade amazônica. A iniciativa, coordenada pelo Instituto Regenera e parceiros, mapeou mais de 40 empreendimentos rurais do Pará capazes de abastecer o evento com alimentos in natura, minimamente processados e sem agrotóxicos.

Maurício Alcântara, cofundador do Instituto, explica que a proposta é também um posicionamento político. “Boa comida significa mostrar o que a agricultura familiar é capaz de oferecer e o que a agroecologia é capaz de entregar, alimentos produzidos com respeito à natureza e às culturas alimentares dos povos amazônicos”, destaca.

Segundo ele, esse movimento é urgente: 75% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa vêm de sistemas alimentares ligados à agricultura, pecuária e desmatamento. “Mostrar que é possível comer diferente é, ao mesmo tempo, uma denúncia e um convite à mudança”, afirma.

Do território para o prato

Dentro da Blue Zone, palco onde ocorrem as negociações oficiais, da Cúpula de Líderes e dos pavilhões nacionais, o Restaurante SocioBio se tornou um dos símbolos dessa mudança. Atendendo entre 2 mil e 5 mil pessoas por dia, a equipe serve refeições elaboradas exclusivamente com ingredientes oriundos de agricultores familiares, cooperativas e Povos e Comunidades Tradicionais.

Para Kauê Assis, representante do restaurante, a proposta é simples e profunda: “A ideia é oferecer comida de verdade. Trabalhamos direto com produtores para garantir alimentos frescos, sem ultraprocessados e de qualidade, preservando nutrientes e respeitando o território.”

Até o fim da COP30, que tem previsão de término para o dia 21 de novembro, a expectativa é alcançar o marco de 120 mil refeições servidas.

Nutrição, agroecologia e justiça climática

A experiência da Cúpula dos Povos mostrou que alimentar multidões com base na agroecologia não só é possível, como fortalece economias locais, valoriza modos de vida sustentáveis e amplia o acesso à sociobiodiversidade. Para Ana Paula, isso exige respeito à sazonalidade, aos sistemas produtivos tradicionais e a uma lógica de abastecimento que una saúde, sustentabilidade e cultura alimentar.

O legado, segundo ela, é tanto técnico quanto pedagógico: cozinhas comunitárias, escolares, solidárias e de grandes eventos se transformam quando nutricionistas compartilham métodos, técnicas e cuidados. O resultado é uma cadeia que distribui conhecimento, fortalece comunidades e demonstra ao país que alimentação saudável é também um caminho para a justiça climática.

Um novo modelo de alimentação com a atuação de nutricionistas

A experiência construída na COP30 demonstra que a transição para sistemas alimentares sustentáveis depende de planejamento, diálogo com os territórios e valorização da sociobiodiversidade, mas exige, sobretudo, a presença técnica de nutricionistas. É esse profissional que articula segurança alimentar, qualidade sanitária, educação nutricional, respeito à cultura alimentar e sustentabilidade ambiental em cada etapa do processo. Na Amazônia, essa atuação se torna ainda mais estratégica, conecta saberes tradicionais, fortalece produção local, reduz impactos climáticos e assegura que alimentos saudáveis cheguem à população de forma ética, justa e responsável.

Ao lado da agricultura familiar, da agroecologia e dos povos e comunidades tradicionais, aNutrição se afirma como eixo estruturante de um novo modelo de alimentação para o país, mais saudável, mais sustentável e alinhado ao enfrentamento da crise climática.

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Walter Santos

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