Por Luciana Leão
A partir desta quarta-feira (29), Paris degusta os sabores diferenciados do cacau brasileiro, durante o Salon du Chocolat, oportunidade para destacar a resiliência do cultivo brasileiro num mercado global competitivo. O evento completa 30 anos este ano, e homenageia o Brasil, com destaque para Pará e Bahia, principais produtores de cacau. A feira acontece de 29 de outubro a 2 de novembro.
O espaço brasileiro será o maior em 15 participações no evento, com mais de 200 m² dedicados ao cacau, e contará com degustações, exposições, esculturas de chocolate e a presença de chefs e produtores nacionais. O espaço Cacau no Brasil é uma parceria com o Brasil Origem Week e Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados) e Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

O site da revista NORDESTE conversou com o baiano Marco Lessa, CEO do grupo MVU, empresa responsável pela missão, e chefe da delegação brasileira que estará em Paris. Ele antecipa as expectativas e o bom momento da indústria cacaueira, em especial, aos produtores de cacau, na Bahia, que vem fazendo a diferença por meio do sistema de agroecologia. Confira a entrevista exclusiva:
NORDESTE – Qual a expectativa de negócios para os produtores de cacau brasileiro, especialmente, o cacau baiano?
MARCO LESSA – A expectativa é extremamente positiva. Estamos vivendo um momento único para o cacau brasileiro. O mercado global de chocolate premium e de origem está em franca expansão, e nosso cacau possui vantagens competitivas que são cada vez mais valorizadas pelos consumidores e pela indústria.
Nosso cacau de variedades especiais tem conquistado prêmios internacionais e é reconhecido por chocolatiers do mundo todo pelo perfil sensorial diferenciado. A demanda crescente por chocolates “bean-to-bar” e de origem única favorece diretamente nossos produtores, que podem garantir rastreabilidade e qualidade superior
Além disso, há um movimento muito forte de verticalização. Produtores estão criando suas próprias marcas de chocolate, capturando maior margem de lucro e construindo conexão direta com o consumidor final. Para a Bahia especificamente, onde temos a tradição cacaueira mais arraigada do país, aliada à infraestrutura em desenvolvimento e proximidade com mercados consumidores, o cenário é de retomada consistente e crescimento sustentável.
A produção em sistemas agroflorestais também abre novas oportunidades no mercado de créditos de carbono e certificações ambientais, gerando receitas adicionais importantes para os produtores.
NORDESTE – Então, podemos afirmar que nosso cacau é sustentável? Como ultrapassar os desafios ambientais e econômicos da produção cacaueira do século XXI, frente, por exemplo, os produtores africanos?
MARCO LESSA– Temos de competir não em volume, mas sim em valor, sustentabilidade e diferenciação. A África domina a produção em massa e isso não vai mudar. Mas o Brasil pode e deve se consolidar no segmento de cacau fino, de origem e sustentável, mercados que pagam prêmios significativos. Nosso grande diferencial está nos sistemas agroflorestais.
O cacau cabruca baiano, cultivado sob a mata, é referência mundial. Isso não é apenas uma questão ambiental é uma vantagem competitiva real que agrega valor, preserva biodiversidade e pode gerar receitas paralelas através de créditos de carbono, certificações e até turismo rural. Precisamos investir em inovação e tecnologia: melhoramento genético, manejo sustentável de qualidade, pós-colheita impecável e rastreabilidade.
Temos que contar a história do nosso cacau, criar marcas territoriais fortes: como já acontece com vinhos. “Cacau da Bahia”, “Cacau da Amazônia” precisam comunicar história, cultura e qualidade excepcional. Outro ponto crucial é eliminar intermediários. Fortalecer cooperativas e conectar produtores diretamente com compradores internacionais muda completamente a equação econômica para quem está na ponta da produção. E tem um aspecto que não pode ser ignorado: a sustentabilidade deixou de ser um “nice to have” para se tornar exigência. As grandes empresas chocolateiras têm metas ESG ambiciosas.
O Brasil pode liderar a produção de cacau carbono neutro ou até positivo, atendendo essa demanda crescente e se posicionando como fornecedor estratégico para quem quer fazer negócios responsáveis. O que parece um desafio diante da produção africana se transforma em oportunidade quando escolhemos o caminho certo.
NORDESTE- O Brasil, a Bahia, já foram terrenos férteis da indústria do cacau. Qual é cenário hoje e o que esperar desse novo momento. Onde o cultivo na atualidade se distancia de tempos outrora?
MARCO LESSA -É importante olhar para o passado com orgulho, mas sem nostalgia paralisante. Nas décadas de 1970 e 1980, o Brasil era o segundo maior produtor mundial de cacau. A economia do sul da Bahia dependia, quase que exclusivamente, dessa cultura. Era um modelo baseado em volume, em monocultura. Quando veio a crise da vassoura-de-bruxa, em 1989, foi devastador justamente por essa dependência.
O cenário atual é completamente diferente — e eu diria que mais maduro e promissor. Hoje produzimos menos em volume, mas com muito mais qualidade e valor agregado. O foco saiu de commodity para origem e excelência. Os produtores aprenderam a diversificar: não dependem exclusivamente do cacau, há outras culturas consorciadas, outras fontes de renda.
Geograficamente também mudamos. O Pará emergiu como grande produtor, temos cultivo crescente no Espírito Santo, Rondônia, em outras regiões da Amazônia. O Brasil cacaueiro é maior e mais diverso do que foi no passado. Mas o que mais me emociona é ver que hoje o Brasil não é apenas fornecedor de matéria-prima. Somos produtores de chocolate. Temos mais de 300 chocolaterias artesanais, muitas delas premiadas internacionalmente. Isso muda tudo. Muda a percepção, muda o valor, muda o protagonismo.
Da monocultura à agrofloresta: o novo ciclo do cacau brasileiro
O novo momento é de reinvenção completa. Saímos de um modelo de monocultura para sistemas agroflorestais que são referência mundial em sustentabilidade. De produtor anônimo para rastreabilidade e marca própria. De mercado de massa para nichos premium que valorizam história, origem e impacto ambiental positivo. Até hoje o cacau baiano é cultivado em cabruca, preservando a Mata Atlântica. Produtores vendem sua amêndoa diretamente para chocolatiers europeus. Fazendas históricas recebem turistas para experiências imersivas. Há controle rigoroso de fermentação, uso de tecnologia, certificações ambientais.
Este novo momento não representa uma volta ao passado. Representa algo muito maior: o Brasil se posicionando como protagonista na produção do cacau e do chocolate que o mundo quer e precisa consumir. Um cacau sustentável, rastreável, de origem, que conta uma história e que respeita quem produz e quem consome. É disso que estamos falando quando dizemos que o Brasil é o País de Honra do Salon du Chocolat. Não é sobre volume. É sobre liderança em um novo modelo de produção cacaueira para o século XXI.

