Nordeste deixa de arrecadar cerca de R$ 2 bilhões em impostos por produtos de tabaco e nicotina

Por Ana Júlia Silva

 

Um estudo inédito realizado pela Escola de Segurança Multidimensional (ESEM) da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto IPSOS, revelou que o Nordeste deixa de arrecadar R$ 2,028 bilhões em impostos devido ao mercado ilegal de produtos à base de nicotina e tabaco. 

O 1º Levantamento Nacional sobre a Demanda de Bens Ilícitos detalha que o valor dos impostos que deixam de ser arrecadados é principalmente atribuído aos cigarros eletrônicos, que representam R$ 1,945 bilhão. Já os sachês de nicotina são uma parcela de R$ 83,3 milhões do montante. 

Potencial Arrecadatório por Estado

Os estados com maior potencial de arrecadação caso existisse regulação foram a Bahia, com um montante de R$ 597.240 milhões, Pernambuco (R$ 292.634 milhões), Ceará (R$ 279.182 milhões) e Maranhão (R$ 215.933 milhões). 

Estados Cigarro eletrônico Bastão de nicotina Sachê de nicotina Total

 

Alagoas  106.179.522 22.800.220 5.486.231 134.465.973
Bahia 471.604.046 101.268.832 24.367.495 597.240.373
Ceará 219.533.053 48.080.601 11.569.244 279.182.898
Maranhão 169.797.694 37.187.909 8.948.224 215.933.827
Paraíba 128.555.378 27.605.049 6.642.378 162.802.805
Pernambuco 230.110.783 50.397.262 12.126.683 292.634.728
Piauí 103.019.579 22.121.677 5.322.959 130.464.215
Rio Grande do Norte 113.793.267 24.435.141 5.879.629 144.108.037
Sergipe 56.115.071 12.289.932 2.957.226 71.362.229

 

Tamanho do Mercado 

A região Nordeste é uma das que mais alimenta o mercado ilegal de produtos de nicotina e tabaco. Anualmente, só o comércio do cigarro eletrônico movimenta R$ 1,121 bilhão, enquanto o bastão de nicotina movimenta R$ 122,971 milhões e o sachê de nicotina fatura R$ 24,439 milhões. 

Em relação aos números de consumidores, a pesquisa classificou em três categorias: mensais, ocasionais e latentes. O Nordeste é o segundo maior consumidor de cigarro eletrônico em todas as categorias, atrás apenas da região Sudeste. 

Mensais (30 dias) 456.339 15,57%
Ocasionais (3 meses) 414.855 18,75%
Latentes (6 meses) 2.350.838 38,96%

 

Já referente ao consumo do bastão de nicotina, a região é a segunda maior consumidora mensalmente e ocasionalmente e a terceira latente. 

Mensais (30 dias) 276.570 17,09%
Ocasionais (3 meses) 456.339 26,19%
Latentes (6 meses) 788.222 21,59%

 

Além disso, também possui o maior número de consumidores latentes e ocasionais de sachês de nicotina, e é o segundo maior consumidor mensal, atrás apenas do Sudeste. 

Mensais (30 dias) 96.800 12,73%
Ocasionais (3 meses) 414.855 52,52%
Latentes (6 meses) 414.855 38,96%

 

Demanda do Mercado Ilegal no Nordeste

Ainda de acordo com o levantamento, quando se trata de cigarros eletrônicos, 31,58% das pessoas compram os produtos por meio de vendedores informais, redes sociais e sites internacionais, e apresentam ambos um percentual de 15,79%. 

A pesquisa revela ainda que o potencial de consumo de bebidas alcoólicas ilegais no Nordeste é de 23%, menor que o potencial do país (24%). O dado, mesmo assim, é preocupante, principalmente após o recente acontecimento de contaminação de destilados com metanol no Brasil. 

Embora apenas 3,08% das pessoas comprem bebidas de vendedores informais na região, 21,97% não prestam atenção à qualidade das bebidas adquiridas com menor valor e 15,91% perceberam alguma diferença na cor, cheiro e sabor. 

Outra seção do estudo foi a demanda por combustíveis. Dos entrevistados que possuem carro, 51,14% buscam por postos com bandeiras tradicionais ao abastecer, enquanto 37,5% não têm nenhuma preferência ao abastecer. 

Em toda a região, 66% dos participantes parecem concordar que o preço do combustível em postos sem bandeira é menor. Além disso, 24% disseram possuir alguma suspeita nos estabelecimentos e cerca de 31% relataram algum problemas depois de três meses. 

Cenário Nacional

No Brasil, o mercado ilegal de produtos de nicotina e tabaco sobre regime de proibição, movimenta R$ 7,81 bilhões por ano, desse total, o cigarro eletrônico representa a maior parcela, R$ 7,05 bilhões. O país deixa de arrecadar em impostos, por ano, sobre esses produtos R$ 13,69 bilhões, que podem estar nas mãos do crime organizado. 

Mais de 50% dos entrevistados afirmaram saber da situação de ilegalidade do produto no Brasil, 26,70% disseram que era legal e 20% declararam não saber. Dos 3000 participantes da pesquisa, 44,10% concordam que o comércio ilícito prejudica a economia do país e mais de 60% acredita totalmente que fortalece o crime organizado. 

Para Leandro Piquet, coordenador da ESEM e da pesquisa, especialista em segurança pública e mercados ilícitos, e docente do Instituto de Relações Internacionais da USP, as redes criminosas têm encontrado no comércio ilegal uma fonte lucrativa e estratégica de financiamento. 

“O comércio ilícito de bens e serviços está sujeito a uma lógica econômica simples: se existe qualquer tipo de demanda, sempre haverá alguém, ou alguma organização, dedicada a atender essa demanda. O regime de proibição, em vez de eliminar os mercados de bens e serviços ilegais, acaba por transferi-los para a esfera do crime organizado, que se estrutura como agente econômico racional, em busca de lucro, controle territorial e corrupção sistêmica”.

Regulamentação dos cigarros eletrônicos

A importação, comercialização e propaganda de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) é proibida no Brasil desde 2009. Em 2024, o regulamento destes dispositivos foi atualizado para proibir também o uso em ambientes coletivos fechados, sejam eles públicos ou privados. 

Ainda em 2024, a Comissão de Indústria, Comércio e Serviços da Câmara dos Deputados aprovou, com emendas, Projeto de Lei 2158/24 que proíbe a fabricação, a importação, a comercialização, o armazenamento, o transporte e a propaganda de cigarros eletrônicos, chamados de vape ou “pod”.

 

 

Curta e compartilhe:

Ana Júlia Silva

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *