Brasil e China, parceiros comerciais há mais de 50 anos, por Paulo Galvão Júnior

A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009

Por Paulo Galvão Júnior (*)

Desde 2009, a República Popular da China tornou-se o maior parceiro comercial da República Federativa do Brasil, superando os Estados Unidos da América (EUA). As exportações brasileiras aumentaram para a China, como também o fluxo total de comércio entre os dois países entre 2009 e 2024.

Essa ascensão comercial reflete, de forma geral, o rápido crescimento da economia chinesa, importando commodities, e a especialização das exportações brasileiras (soja, minério de ferro, petróleo, celulose, carne bovina e açúcar) para abastecer esse mercado emergente. Por outro lado, a pauta brasileira para a China permanece relativamente concentrada em commodities, enquanto as importações da China pelo Brasil são fortemente compostas por bens manufaturados ou industrializados, o que implica desafios de diversificação da pauta brasileira.

Relação Bilateral de Comércio Exterior do Brasil com a China

A seguir, a Tabela 1 apresenta os principais dados disponíveis sobre as exportações do Brasil para a China, as importações do Brasil da China, a conta corrente de comércio bilateral (exportações mais importações) e o saldo comercial (exportações menos importações), conforme a plataforma Comex Stat do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Os valores estão em bilhões de dólares americanos (US$) Free on Board (FOB):

Tabela 1. Relação Bilateral de Comércio Exterior do Brasil com a China (2009-2024)
Ano Exportações do Brasil para China Importações do Brasil da China Conta Corrente de Comércio Bilateral Saldo Comercial
2009 US$ 21,0 bilhões US$ 15,9 bilhões US$ 36,9 bilhões US$ 5,1 bil
2010 US$ 30,8 bilhões US$ 25,6 bilhões US$ 56,4 bilhões US$ 5,2 bi
2011 US$ 44,3 bilhões US$ 32,8 bilhões US$ 77,1 bilhões  US$ 11,5 bi
2012 US$ 41,2 bilhões US$ 34,2 bilhões US$ 75,4 bilhões US$ 7,0 bi
2013 US$ 46,0 bilhões US$ 37,3 bilhões US$ 83,3 bilhões  US$ 8,7 bil
2014 US$ 40,6 bilhões US$ 37,3 bilhões US$ 77,9 bilhões US$ 3,3 bi
2015 US$ 35,5 bilhões US$ 30,7 bilhões US$ 66,2 bilhões US$ 4,8 bi
2016             US$ 35,1 bilhões            US$ 23,4 bilhões                US$ 58,5 bilhões      US$11,7 bi
2017             US$ 47,5 bilhões            US$ 27,3 bilhões                US$ 74,8 bilhões      US$ 20,2 bi
2018             US$ 63,9 bilhões            US$ 34,7 bilhões                US$ 98,6 bilhões      US$ 29,2 bi
2019             US$ 63,4 bilhões            US$ 35,3 bilhões                US$ 98,7 bilhões      US$ 28,1 bi
2020             US$ 67,8 bilhões            US$ 34,8 bilhões                US$ 102,6 bilhões      US$ 33,0 bi
2021             US$ 87,9 bilhões            US$ 47,6 bilhões                US$ 135,5 bilhões      US$ 40,3 bi
2022             US$ 89,8 bilhões            US$ 60,7 bilhões                US$ 150,5 bilhões      US$ 29,1 bi
2023             US$ 104,3 bilhões            US$ 53,2 bilhões                US$ 157,5 bilhões      US$ 51,1 bi
2024             US$ 94,4 bilhões            US$ 63,5 bilhões                US$ 157,9 bilhões      US$ 30,9 bi
Fonte: Comex Stat do MDIC.

O Brasil exporta mais produtos para a China do que importa bens, provocando no ano de 2024 um superávit comercial de US$ 30,9 bilhões, de acordo com a Comex Stat do MDIC. Nos últimos dezesseis anos, os fluxos comerciais entre os dois países cresceram de forma expressiva, por exemplo, em particular, no de 2024 o comércio bilateral foi de US$ 157,9 bilhões. Esse relacionamento assume importância estratégica para o Brasil, seja para o agronegócio, seja para a exportação de recursos naturais, como minério de ferro e petróleo.

Os dez principais exportados pelo Brasil para a China são: soja (US$ 31,5 bilhões), óleos de petróleo bruto (US$ 20,0 bilhões), minério de ferro (US$ 19,9 bilhões), carne bovina, celulose, açúcar de cana, carne de frango, algodão, ferro-liga e cobre. Bem como, os dez principais produtos mais importados pelo Brasil da China são: válvulas e tubos (US$ 4,5 bilhões), equipamentos de telecomunicação, automóveis, máquinas eletrônicos, compostos organo-inorgânicos, ácidos nucléicos, peças e acessórios destinados às máquinas processadores, sulfato de amônio, aparelhos para transmissão de voz e meios magnéticos.

Nos últimos 16 anos, a média anual das exportações brasileiras para a China foi de US$ 57,1 bilhões, tendo a soja, o petróleo bruto e o minério de ferro como os três principais produtos exportados para a segunda maior economia do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal e a segunda nação mais populosa do planeta.

Vale destacar também que as exportações brasileiras cresceram de US$ 21,0 bilhões em 2009 para US$ 94,4 bilhões em 2024, o que representa um crescimento absoluto de US$ 73,4 bilhões e um aumento relativo de 349,52%, de acordo com os dados do MDIC.

Considerações Finais

Concluindo, o Brasil e a China são países membros do BRICS (Brasil, Russia, India, China, and South Africa) e do Grupo dos Vinte (G20). O crescimento econômico robusto da China e sua liderança na economia mundial em termos de PIB PPC (paridade do poder de compra) consolidaram o país asiático, de forma estável, como o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. Esse cenário evidencia a importância estrutural do comércio bilateral sino-brasileiro nos próximos anos.

Desde então, o Brasil tem registrado superávits comerciais persistentes em sua balança com a China, exportando mais do que importa bens. Esse resultado é impulsionado pelo forte perfil exportador de commodities, e o superávit se tornou particularmente expressivo a partir de 2017.

A pauta de exportações brasileiras para a China é altamente concentrada em produtos primários, especialmente soja, minério de ferro, petróleo bruto e celulose. Embora essa concentração proporcione ganhos de escala, também gera vulnerabilidades, como a dependência dos preços internacionais desses produtos e a exposição a flutuações do mercado global.

Nesse contexto, um dos principais desafios para o Brasil é promover a diversificação da pauta exportadora, agregando valor aos produtos e ampliando a participação de bens com maior valor agregado na pauta exportadora brasileira. Essa mudança é essencial para reduzir a dependência de commodities e aumentar a resiliência do setor exportador.

A relação bilateral Brasil-China também oferece importantes oportunidades. A China representa um mercado consumidor vasto e em constante transformação, com potencial para atração de investimentos chineses no Brasil, além de parcerias estratégicas nas áreas de infraestrutura, energia e tecnologia. Iniciativas como o estudo de perfil socioeconômico desenvolvido pelo MDIC em parceria com o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) buscam justamente compreender melhor essa dinâmica comercial.

No entanto, a forte dependência do mercado chinês apresenta riscos significativos para o Brasil. Alterações no ritmo de crescimento da economia chinesa, em suas políticas de importação, nos preços das commodities ou na imposição de barreiras comerciais podem impactar negativamente as exportações brasileiras.

Por fim, o relacionamento comercial entre o secular Brasil e a milenar China encontra-se em um estágio maduro e de grande escala desde 15 de agosto de 1974. A relação bilateral passou de US$ 36,9 bilhões em 2009 para US$ 157,9 bilhões em 2024, representando um crescimento expressivo de 327,9% nas trocas comerciais entre os dois países do Sul Global.

O próximo passo estratégico para o Brasil deve ser aumentar o volume exportado, como também elevar a qualidade da pauta exportadora, incorporando inovação tecnológica, diversificar produtos, melhorar a competitividade e acompanhar de forma atenta as transformações da economia mundial.

(*) Economista brasileiro.

 

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Redacao RNE

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