Estudo com participação do IPAM aponta que os recifes de corais já ultrapassaram o limite de recuperação e reforça a urgência de ação na Amazônia e no combate ao aquecimento global
O planeta acaba de cruzar o primeiro ponto de não retorno das mudanças climáticas. O alerta está no novo Relatório Global sobre Pontos de Inflexão, divulgado pela Universidade de Exeter e parceiros internacionais.
O documento, produzido por 160 cientistas de 23 países, indica que os recifes de corais tropicais já ultrapassaram seu limite de sobrevivência, impactando ecossistemas marinhos e a vida de quase um bilhão de pessoas que dependem deles.

O estudo também traz um alerta sobre a Amazônia, onde a degradação florestal e as mudanças climáticas se aproximam de um ponto crítico. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) participou da elaboração do capítulo sobre o bioma.
“Sem ação imediata, os riscos em cascata podem gerar perdas irreversíveis para ecossistemas e comunidades. Fortalecer os territórios coletivos, onde a floresta ainda resiste, é o caminho para transformar pontos de inflexão negativos em forças de regeneração e justiça climática”, destacou Patrícia Pinho, diretora-adjunta de Pesquisa do IPAM.
Segundo o relatório, o aquecimento global está prestes a ultrapassar 1,5 °C, limite previsto no Acordo de Paris. A cada fração de grau acima desse patamar, aumentam as chances de colapsos ecológicos.
O professor Tim Lenton, da Universidade de Exeter, resume o desafio: “Estamos nos aproximando rapidamente de vários pontos de inflexão do sistema terrestre, com consequências devastadoras para as pessoas e a natureza. Isso exige ação imediata e sem precedentes dos líderes globais e da COP30, que será realizada no Brasil.”
Amazônia e justiça climática
O relatório destaca que os povos indígenas e comunidades tradicionais são parte essencial da solução climática. Terras indígenas e unidades de conservação desempenham papel estratégico na retenção de carbono e preservação dos ecossistemas, enquanto áreas públicas sem destinação sofrem com o avanço da degradação.
Para o IPAM, reconhecer os direitos territoriais e fortalecer a governança local são medidas essenciais para evitar o colapso da floresta e reduzir desigualdades socioambientais.
Pontos de virada positivos
Nem tudo são más notícias. O documento também aponta avanços nas energias solar e eólica, nos veículos elétricos e em novas tecnologias verdes — exemplos de “pontos de inflexão positivos” que mostram que transformações rápidas e em larga escala são possíveis.
O relatório destaca ainda que o Brasil tem potencial de liderança global com o desenvolvimento de aço, hidrogênio e amônia verdes, além de soluções baseadas na natureza.
Segundo o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, o estudo será uma das referências para a “Agenda de Ação” do evento, que busca acelerar planos de transição climática: “O relatório é uma evidência esperançosa e sóbria de que a humanidade ainda pode optar por mudar e evoluir em direção a um futuro seguro, próspero e equitativo.”
Contexto e próximos passos
Entre as principais ameaças mapeadas estão o colapso da floresta amazônica, o declínio dos recifes de corais e a possível interrupção da Circulação Meridional do Atlântico, que regula o clima global.
O estudo conclui que a única forma de evitar impactos irreversíveis é reduzir drasticamente as emissões, restaurar ecossistemas e acelerar pontos de virada positivos. “Somente com uma combinação de políticas decisivas e mobilização social o mundo poderá transformar riscos existenciais em oportunidades de regeneração”, finaliza Lenton.

