Cooperativas de crédito unem inclusão financeira e sustentabilidade no campo e na cidade

Por Luciana Leão

Em um cenário de juros elevados e inadimplência recorde, o acesso ao crédito se tornou um desafio para milhões de brasileiros. Com a taxa Selic em 15% ao ano e mais de 77 milhões de consumidores negativados, segundo a Serasa Experian, oferecer empréstimos a custos viáveis parece impossível. Mas é justamente nesse ambiente adverso que o cooperativismo de crédito vem crescendo e ampliando sua presença em todo o país.

As cooperativas de crédito têm se consolidado como protagonistas silenciosas do desenvolvimento econômico brasileiro — especialmente no campo, mas também nas cidades.

Com foco no cooperado e não no lucro, essas instituições oferecem acesso a crédito com juros mais justos, menos burocracia e uma relação de parceria que vai além das transações financeiras.

No dia 16 de outubro, em mais de 117 países no mundo, celebrou-se o Dia Internacional das Cooperativas de Crédito (DICC) e, este ano, a data traz o tema Cooperação por um mundo próspero, definido pelo Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito (WOCCU). O objetivo é reforçar o papel dessas instituições como agentes de transformação econômica, inclusão financeira e prosperidade coletiva.

“Celebrar o Dia Internacional das Cooperativas de Crédito é também reafirmar que o sistema financeiro pode ser mais humano e inclusivo. Ao escolher o coop, cada pessoa participa de uma rede que reinveste nas comunidades, fortalece a economia local e contribui para um mundo mais justo, equilibrado e sustentável”, destaca Márcio Lopes de Freitas, presidente do Sistema OCB, em comunicado.

No Brasil, o protagonismo das cooperativas de crédito brasileiras reforça a importância da data. Atualmente, o país conta com 689 cooperativas, que atendem 20,1 milhões de cooperados em mais de 10 mil pontos de atendimento.

Segundo o Banco Central, o cooperativismo de crédito manteve em 2024 sua expansão, com presença física em 58% dos municípios brasileiros. E mais. Em 2024, o setor movimentou R$ 455 bilhões em operações de crédito e superou R$ 885 bilhões em ativos, um crescimento de 21,1% em relação ao ano anterior. Além disso, a carteira verde das cooperativas ultrapassou US$ 10 bilhões, mostrando o compromisso com o desenvolvimento sustentável.

Em Pernambuco, as cooperativas de crédito seguem o mesmo ritmo de expansão. Presentes do litoral ao Sertão, elas integram sistemas como Sicredi, Sicoob, Unicred e Cresol. Segundo o Anuário das Cooperativas do sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), o setor registrou, em 2024, R$ 2,5 bilhões em ativos e R$ 38 milhões em sobras — valores que refletem não apenas o crescimento do segmento, mas também sua capacidade de gerar retorno coletivo aos cooperados.

Cresol amplia atuação no Vale do São Francisco

Agência da Cresol em Petrolina. Foto: Divulgação

Um exemplo do mercado crescente do cooperativismo de crédito vem do sertão pernambucano com a Cresol que fortalece sua presença no Nordeste e amplia o acesso a crédito sustentável no campo e na cidade.

O gerente da Cresol em Petrolina (PE), Andrio Sartori, gaúcho e integrante do sistema há 13 anos, conta ao site da revista NORDESTE que chegou ao Vale do São Francisco com a missão de expandir o modelo cooperativo na região.

A Cresol surgiu no Paraná e tradicionalmente com atuação concentrada nos três estados do Sul. Nos últimos anos, a cooperativa ampliou sua presença em todo o Brasil e hoje está em 19 estados brasileiros. No Nordeste, a chegada aconteceu por meio da incorporação de cooperativas menores que enfrentavam dificuldades, movimento apoiado pelo Banco Central e com incentivo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“No nosso caso, a Cresol Nordeste incorporou três cooperativas e hoje conseguiu manter e expandir sua atuação, chegando a oito agências no Nordeste, com destaque para Pernambuco e Ceará, onde temos o maior volume de negócios”, explica Sartori.

Questionado sobre o ambiente econômico atual, ele destaca a resiliência do sistema cooperativo diante dos juros altos e da inadimplência crescente. “Temos nos consolidado como alternativa competitiva aos bancos tradicionais, porque estamos próximos do cooperado. Ajudamos no planejamento financeiro e oferecemos linhas de crédito com taxas menores e adaptadas à realidade local”, explica.

Segundo ele, o diferencial está na essência do modelo. “Enquanto os bancos buscam lucro para acionistas, as cooperativas focam no bem-estar dos associados e no desenvolvimento da comunidade. O cooperado não é apenas cliente. É dono do negócio. Essa relação de pertencimento cria um atendimento mais humano e fortalece a economia local.”

Equipe da Cresol durante visita a cooperados em parreiral, na zona rural de Petrolina, Vale do São Francisco. Foto: Divulgação

Em Petrolina, a Cresol tem ampliado sua base, principalmente entre produtores rurais, pecuaristas, fruticultores e pequenos empresários. Para Sartori, o potencial do Nordeste é imenso, mas ainda enfrenta barreiras culturais e de desconhecimento.

“Muitas pessoas ainda confundem cooperativas com associações, usadas às vezes para fins políticos. Mas, à medida que entendem o papel e os benefícios do cooperativismo, tornam-se seus maiores divulgadores.”

Um exemplo que vem do campo

Marcos André Rocha Vanderlei, empresário que atua com a distribuição de cimento na região do Vale do São Francisco, no sertão pernambucano, atende uma região de até 150km, que vai de Petrolina (PE) a Juazeiro (BA). No começo, segundo relatou, não possuía nenhum recurso. Só a vontade de crescer. Foi então que procurou o acesso ao microcrédito por meio da cooperativa Cresol e conseguiu a liberação, à época, em 2019, o valor de R$ 30 mil.

Mas, o apoio não ficou somente neste capital. A operação foi renovada ao pagar as prestações e a diferença era novamente investida no negócio, o que aumentou o pedido de crédito para novos projetos. Com o tempo, o empresário passou a solicitar R$ 70 mil, depois R$ 200 mil e sempre seguiu investindo. Como era capital de giro, com prazo curto, foi preciso injetar na mercadoria de trabalho e fazer o negócio girar.

Com os recursos, a estrutura física foi montada, incluindo prédio, galpão e caminhões. Dessa maneira, a parceria com a cooperativa foi se fortalecendo. “Eu não pego mais microcrédito como antes porque hoje a realidade é diferente. Faturo mais de R$ 1,5 milhão por mês. Mas esse recurso é fundamental. A cooperativa sempre esteve de portas abertas. E, nesse sentido também, agregamos novos produtos, trabalhando, inclusive, com ferro. A cooperativa acreditou em mim e com isso e tive um crescimento de mais de 100%,” revelou.

Crédito na palma da mão

Com atuação regulada pelo Banco Central, as cooperativas oferecem praticamente todos os serviços de um banco tradicional como cartão de crédito, conta digital, empréstimos, investimentos e contam com um Fundo Garantidor de até R$ 250 mil por CPF. Nos últimos anos, o avanço tecnológico permitiu que o crédito cooperativo chegasse também via aplicativos e canais digitais, ampliando o alcance do sistema em regiões antes pouco atendidas pelo setor bancário.

“Os números demonstram que o cooperativismo de crédito segue expandindo de forma sólida e sustentável, contribuindo para o fortalecimento da concorrência e eficiência do Sistema Financeiro, além de consolidar seu papel como agente de inclusão financeira”, destaca André Maurício Trindade da Rocha, Chefe do Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro (Desig) do BC, em relatório divulgado pelo BC.

Um modelo de propósito social

Adhemar Michelin Filho é advogado, pós-graduado em Direito Empresarial pela FGV/SP

Para o advogado Adhemar Michelin Filho, sócio da Michelin Sociedade de Advogados, pós-graduado em Direito Empresarial pela FGV/SP e em Direito Ambiental pela PUC/SP, o cooperativismo financeiro é um modelo que alia solidez, proximidade e propósito social.

“Por serem instituições sem fins lucrativos, as cooperativas de crédito colocam o desenvolvimento do cooperado e da comunidade em primeiro lugar. O resultado é um crédito mais acessível, adaptado à realidade local e voltado ao crescimento sustentável”, afirma.

A lógica cooperativa também se destaca em momentos de crise. Enquanto bancos tradicionais costumam seguir políticas mais rígidas, as cooperativas oferecem soluções personalizadas e renegociações flexíveis, com o objetivo de ajudar o produtor a atravessar períodos de estiagem, queda de safra ou endividamento bancário.

“O cooperativismo tem uma abordagem mais humana. O objetivo é que o cooperado se recupere, continue produzindo e contribua para o fortalecimento da economia regional”, acrescenta o advogado.

Nos últimos anos, o setor tem investido fortemente em inovação e digitalização. Hoje, muitas cooperativas já disponibilizam plataformas digitais e aplicativos próprios, oferecendo serviços financeiros completos de forma rápida e segura, inclusive para produtores rurais em áreas remotas.

Além do crédito, cresce o apoio às boas práticas ambientais. Diversas cooperativas oferecem linhas específicas para energia solar, biogás, irrigação eficiente, manejo de resíduos e agricultura de baixo carbono, com taxas e prazos diferenciados.

“É um ciclo virtuoso. A cooperativa apoia o produtor, o produtor adota práticas sustentáveis e toda a comunidade se beneficia”, resume Michelin. Para quem ainda tem receio de ingressar em uma cooperativa, o advogado reforça que a principal diferença está na relação de pertencimento: “O cooperado participa das decisões, compartilha os resultados e tem voz ativa no rumo da instituição. É uma forma democrática de fazer finanças e desenvolver o país de dentro para fora.”

 

 

*Matéria atualizada dia 26/10, às 15h44

 

 

Curta e compartilhe:

Luciana Leão

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *