A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) autorizou, na semana passada, o início do tráfego ferroviário de cargas na Ferrovia Transnordestina, em regime de comissionamento. A decisão foi aprovada por unanimidade pela diretoria da agência e oficializa um marco aguardado há décadas no transporte de cargas do Nordeste.
O trecho liberado compreende cerca de 679 quilômetros, entre os municípios de São Miguel do Fidalgo (PI) e Acopiara (CE), passando por Salgueiro (PE). A operação será conduzida pela concessionária Transnordestina Logística S.A. (TLSA).
Durante o comissionamento — fase que antecede a operação comercial plena —, a ferrovia funcionará sob condições técnicas específicas definidas pela ANTT, com o objetivo de garantir a segurança operacional e estrutural da via. O regime permite que a ferrovia se adapte gradualmente às demandas de carga e às rotinas operacionais.
As inspeções realizadas pela agência confirmaram que a infraestrutura atende aos requisitos mínimos para o início do tráfego, restando apenas ajustes pontuais sob responsabilidade da concessionária. Entre as determinações estão limites de velocidade, monitoramento técnico contínuo e campanhas de segurança voltadas às comunidades próximas à ferrovia.
Nesta etapa inicial, o transporte abrangerá grãos, algodão, minérios, gesso, gipsita e contêineres, com potencial de movimentar até 1 milhão de toneladas de carga por ano. Os trens terão duas locomotivas e 20 vagões, atingindo velocidades de até 60 km/h, conforme as restrições operacionais.
Com investimento total estimado em cerca de R$ 12 bilhões, a Ferrovia Transnordestina soma 1.206 quilômetros de extensão e prevê conexão entre Eliseu Martins (PI) e os portos de Pecém (CE) e Suape (PE). Segundo a ANTT, essa é a primeira operação de cargas da ferrovia, considerada um passo decisivo na ampliação da malha ferroviária nacional e na integração logística do Nordeste.
Mais de duas décadas separam o início das obras da Transnordestina deste momento simbólico. Concebida para transformar a infraestrutura logística do Semiárido, a ferrovia já tem aproximadamente 76% de avanço físico em sua primeira etapa, que deve conectar 1.061 km entre Ceará, Pernambuco e Piauí até 2027. Ao todo, estão previstos seis terminais de carga ao longo dos 1.750 km de extensão.
O investimento total deve alcançar quase R$ 15 bilhões, com impacto estimado de até R$ 7 bilhões por ano no PIB do Semiárido nordestino. Trata-se do principal projeto ferroviário em andamento no país — uma promessa antiga que começa, enfim, a se mover pelos trilhos do Nordeste.

