Carlos Vieira desenvolve abordagens de cronista, agora tratando da Ilha no imaginário

Ao longo dos tempos, o cidadão global de acúmulo de vivências dentro e fora do universo urbano de nome Carlos Vieira se esmera na condição de Cronista do Cotidiano muito além das tratativas super áridas da conjuntura econômica, a exemplo do que professa na Caixa Econômica Federal.

É o que se vislumbra com a crônica a seguir na qual ele se revela exímio conhecer do significado da Ilha.

Leiamos e degustemos a síntese do novo texto.

A Ilha do Dia Seguinte

 

Por Carlos Vieira

 

Sempre que penso em ilhas, uma curiosidade se acende em mim. A ilha é, no imaginário coletivo, um espaço ermo, destino de náufragos e viajantes em situações extremas. Na linguagem cotidiana, a metáfora se repete: “ciclano é uma ilha”; “as áreas da empresa não se comunicam, são ilhas”; “fulano está perdido em seus pensamentos, como uma ilha”.

 

Mas a minha ilha é povoada de imaginação. Ela guarda tesouros escondidos, como aqueles que encontrei nos livros que li e ainda leio. Penso nas ilhas do Caribe, com seus piratas e fantasias, nas sombras de Capitão Gancho e, sobretudo, na ilha de Umberto Eco — a Ilha do Dia Seguinte. Fiquei impactado com o destino de Roberto della Griva, o jovem piemontês que, depois de um naufrágio, encontra refúgio em um navio deserto. Diante dele, uma ilha exuberante, tão próxima e, ainda assim, inalcançável, porque não sabia nadar.

 

Esse paradoxo — tão perto e tão longe — ecoa em todos nós. Eco constrói nele a metáfora daquilo que desejamos e que o tempo nos adia: o “dia seguinte”, sempre além do alcance.

 

E há ainda outras ilhas, mais íntimas. Em Pilar del Río, que narrou em memória sua convivência com Saramago na ilha de Lanzarote, encontramos o amor convertido em território. Fernando Gómez Aguilera, na introdução da obra, escreve como quem lança âncoras: “Viver numa ilha é um ato de fé. Aprende-se a prescindir, a apreciar o suficiente, esfumam-se o acessório e o acidental.”

 

Talvez seja isso: vivemos, cada um, nas nossas ilhas pessoais. Às vezes, parecem mundos de fantasia, isolados e sem pontes. Mas quando reveladas, essas ilhas deixam ver continentes inteiros, feitos de memórias, afetos e verdades sedimentadas. Vamos chegar a elas em breve.

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Walter Santos

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