Entrevista: Combate à Desertificação no Nordeste com Inovação e Tecnologia

Por Luciana Leão

 

Em um esforço contínuo para combater a desertificação no Nordeste brasileiro, um programa inovador está sendo implementado, unindo academia, governo, sociedade civil e startups.

O projeto, iniciado em agosto deste ano, foca na agricultura familiar e na recuperação de áreas degradadas, com metas de enfrentamento a curto prazo baseadas em lições experimentais, tecnologias já testadas e inovações, incluindo casos trazidos da China.

O programa CODE NE foi apresentado em um dos painéis e mesas de debates da COP Nordeste e da ICID 2025 – 3ª Conferência Internacional sobre Clima e Desenvolvimento em Regiões Semiáridas, em Fortaleza.

Um dos pilares dessa iniciativa é a instalação de uma fábrica de biochar, um material produzido pela pirólise de matéria orgânica.

Conversamos com um dos gestores do projeto, o presidente do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (CETENE), Marcelo Carneiro Leão, instituição vinculada ao Ministério da Ciência,Tecnologia e Inovação (MCTI) para entender melhor as ações e os impactos esperados. 

REVISTA NORDESTE: Para começar, gostaríamos de entender como a fábrica de biochar contribui para a saúde do solo e a retenção de nutrientes.

Marcelo Carneiro Leão, presidente do CETENE

Marcelo Carneiro Leão: A fábrica de biochar é uma peça fundamental nesse processo. O biochar é produzido através da pirólise de matéria orgânica, resultando em um carvão que é aplicado no solo junto com a semente. Este carvão é extremamente rico em nutrientes e possui uma alta capacidade hidroscópica. Isso significa que, quando chove, ele retém o líquido, mantendo a saúde do solo por mais tempo. A biofábrica é pequena e serve como modelo para sensibilizar sobre essas ações.

NORDESTE: Além do biochar, quais outras tecnologias estão sendo implementadas para o combate à desertificação?

MARCELO CARNEIRO LEÃO: Estamos implementando diversas tecnologias. Por exemplo, em cada cidade onde atuamos, a prefeitura cede uma área e nós instalamos tecnologias desenvolvidas no CETENE em conjunto com nossas startups. Uma delas é a aplicação de biochar, como já mencionamos, e o aproveitamento de água de chuva. Destaco também as estações de medição do solo.

NORDESTE: Poderia detalhar um pouco mais sobre essas estações de medição do solo? Qual é o diferencial delas?

MARCELO CARNEIRO LEÃO: As estações de medição são um avanço significativo. Elas medem a temperatura, pH e outros parâmetros do solo em profundidades de 20 cm, 60 cm e 90 cm. O grande diferencial é que elas usam energia solar, eliminando a necessidade de troca frequente de baterias, como ocorre com outras no mercado. A placa solar tem uma vida útil de 4 a 5 anos.

NORDESTE: E como essas estações impactam a irrigação, que é um gasto considerável?

MARCELO CARNEIRO LEÃO : O impacto na irrigação é enorme. Antigamente, a irrigação era feita “no olho”, o que gerava desperdício. Com a introdução de sensores, o sistema detectava quando o solo estava seco e acionava a irrigação. No entanto, muitas vezes chovia horas depois, tornando a irrigação desnecessária.

Agora, esses sensores estão acoplados a uma plataforma na nuvem, que se integra a plataformas climáticas com previsão de chuva. O sistema só aciona a irrigação se o solo estiver seco E se não houver previsão de chuva nas próximas horas ou dias. Se houver previsão de chuva, ele segura a irrigação para evitar o desperdício. Isso otimiza o uso da água e reduz custos.

NORDESTE: Onde esse programa de combate à desertificação foi iniciado e qual a abrangência atual?

MARCELO CARNEIRO LEÃO: O programa foi iniciado em agosto deste ano. Começamos com algumas cidades em Pernambuco, devido ao contato inicial que tivemos lá. A ideia é expandir para outras regiões. Neste primeiro ano, estamos focados em tirar a “ciência da gaveta” e unir governo, empresa e sociedade. Já fizemos levantamentos em mais cidades e estamos com organizações envolvidas na realização do projeto.

NORDESTE: Quais são os pilares principais desse programa?

MARCELO CARNEIRO LEÃO: Os pilares principais são a agricultura familiar e as áreas degradadas. Nosso objetivo é focar nesses dois aspectos para garantir um impacto significativo e sustentável.

NORDESTE: Em 2025, o trabalho foi iniciado. Poderia nos dar um breve panorama do que foi feito?

MARCELO CARNEIRO LEÃO: Em 2025, trabalhamos com cinco cidades, realizando visitas mensais, implantando o biochar, focando na atenção à irrigação com abastecimento, automação da irrigação, verificação da nutrição do solo e recuperação de áreas nativas. A ideia é que possamos continuar esse trabalho em conjunto com os laboratórios.

 

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Luciana Leão

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