Contando com o apoio de alguns amigos que têm, Bolsonaro nem precisa de inimigos. A lista de aliados, que um dia o capitão acreditou estar a seu lado, a cada dia revela uma baixa, e a tendência é que a adoração e a idolatria ao “mito” comece a ruir. Esfacelar, digamos assim.
Nada mais previsível, em política não existe amizade sólida. Existem sim, circunstâncias favoráveis, ou não. Condenado pela justiça, com a saúde precária e com a idade já na fila de atendimento preferencial, o destino impõe ao ex-presidente o que a natureza exige. Melhor se acostumar, e relaxar. Agindo assim, quem sabe dói menos.
Vem dos chamados “amigos inseparáveis” os primeiros sinais de que, devido às circunstâncias, o melhor a fazer agora é recuar, se precaver e aguardar os próximos passos. Horas atrás, em uma entrevista ao vivo, em espaço nobre, o Presidente do PL, Valdemar Costa Neto, com a cara de pau que lhe é peculiar, disse com todas as letras que de fato, sob o comando de Bolsonaro, aconteceu uma reunião onde se cogitou a aplicação de um golpe de estado à democracia do País.
“Planejamento não é crime”, disse ele alegando que nada aconteceu e que, apenas por isso, nada justifica tanta ação da justiça, processando as pessoas envolvidas. Em alguns segundos, como se algo dito assim nada representasse, Costa Neto simplesmente desmantelou o que Bolsonaro e sua turma negaram durante quase dois anos. Difícil acreditar que afirmação desse tipo venha de quem ocupa cargo partidário tão importante, ferindo de morte o pupilo mais importante da corporação.
Não pode ser coisa de amigo.
Igualmente descuidado com o passado, e principalmente com o futuro do ex-presidente, o filho Eduardo, de forma atabalhoada e irresponsável, insiste em atiçar a ira de adversários políticos, com argumentos descabidos, tumultuando um ambiente em que o próprio prejudicado sinaliza que deseja amenizar tensões.
No Congresso, principalmente na Câmara dos Deputados, a ala mais radical da política brasileira, se arvora em exigir uma anistia aos condenados pela justiça, contrariando a própria constituição e a vontade popular.
Pesquisa recente do Datafolha, ouvindo mais de 2 mil pessoas em 113 municípios do Brasil, indicam que 54% das pessoas ouvidas também não querem a anistia, e 64% não concordam com o perdão aos punidos pela justiça. Claro que a oposição, e os seguidores do ex-presidente tem o direito a todas as manifestações e críticas em curso, isso é democrático. Afrontar a constituição, e insistir em afirmações sem respaldo legal, visa apenas o tumulto provocador.
Trabalhar pela redução do tempo de condenação do ex-presidente e demais acusados, talvez seja a investida mais coerente e equilibrada, validando o debate. Aqueles que se julgam amigos de Bolsonaro, e por ele prometem até ações extremas reparando injustiças, mais prejudicam do que ajudam.
Para os que acreditam e apostam em estatísticas, vale uma consulta aos registros da história. Toda ação gera consequência, algumas danosas e de difícil reparo. De todo esse processo em curso, o que se ouve menos é a palavra pacificação, talvez necessária a um ambiente sempre tenso e rico em discordâncias e agressões verbais, ofensivas.
Dos problemas de saúde, bem administrados por uma equipe médica competente, parece que Bolsonaro tem superado com corajosa resistência. Na música “Canção da América”, de Fernando Brant e Milton Nascimento, maior sucesso desde de 1980, o cantor abre o peito com “o que importa é ouvir a voz que vem do coração”. Tem bolsonarista trocando esse verso para “a voz que vem da eleição”…. Amigo assim não vale a pena existir.
José Natal
Jornalista

