Nordeste é a única região a reduzir pedidos de recuperação judicial no 2º trimestre de 2025

Por Ana Júlia Silva

Enquanto o Brasil finalizou o segundo trimestre de 2025, com cerca de 5 mil empresas em recuperação (com alta de 1,7% em relação ao período anterior), o Nordeste foi a única região a registrar queda (baixa de 2,3%), de acordo com o Índice de Recuperação Judicial (IRJ-RGF)  do Monitor RGF. Os estados que tiveram  maior redução foram Bahia, Ceará e Paraíba. 

A Bahia, foi o estado que registrou a maior baixa no número de empresas em recuperação judicial – o segundo trimestre teve uma redução de 15%, 22 casos a menos que o anterior. 

Já o Ceará caiu 5,6% no número de empresas, no primeiro trimestre do ano possuía 71 empresas em recuperação e no segundo 67. A Paraíba contabilizou apenas um caso a menos (-2,9%).

Pernambuco, Maranhão, Alagoas e Sergipe permaneceram com a mesma situação do trimestre anterior, enquanto Rio Grande do Norte e Piauí tiveram ambos um aumento de cinco empresas em recuperação. 

Baseado no levantamento do segundo trimestre, Rodrigo Gallegos, sócio responsável pelo monitor RGF, realizou uma análise regional exclusiva para o site da Revista NORDESTE. 

Rodrigo Gallegos

Nordeste em direção contrária

No cenário nacional, a alta é explicada pelos juros elevados, crédito mais caro, compressão de margens com alta de câmbio e insumos, além do peso do endividamento contraído durante a pandemia. Os setores como o varejo e agronegócio foram os mais atingidos, principalmente o agro por enfrentar os riscos climáticos e volatilidades de commodities. 

O Nordeste, por outro lado, não possui uma economia dependente de capital intensivo, mas sim focada em serviços de indústria leve, o que reduz a exposição a esse tipo de risco. 

Além disso, outro fator importante, segundo Gallegos, foi a conclusão do processo do Grupo Renova Energia, responsável por unidades de geração de energia na Bahia que teve sucesso em se reestruturar financeiramente, diminuindo a quantidade de processos. 

Todas as outras regiões registraram alta: Norte (+5,2%), Sul (+4,5%), Sudeste (+1,6%) e Centro-Oeste (+1,0%).

Quando comparado pelo Índice de Recuperação Judicial (IRJ), que mede a proporção de empresas em RJ em relação ao total de negócios ativos, o Nordeste aparece no meio do ranking nacional, com taxa de 2,32. O Centro-Oeste (2,75) e o Sul (2,41) lideram, enquanto Sudeste (1,68) e Norte (1,14) ficam abaixo.

Setores mais pressionados

Apesar da redução de recuperações judiciais, alguns setores regionais ainda seguem pressionados. De acordo com Rodrigo Gallegos, entre os serviços os destaques negativos são serviços imobiliários, transporte rodoviário de carga e atividades hospitalares. 

Na indústria, usinas de álcool e açúcar e fabricação de cimento lideram os pedidos. No comércio, os mais afetados são postos de combustíveis e o varejo de vestuário. No pilar de construção, energia e saneamento, construção civil de edifícios e incorporação de empreendimentos imobiliários concentram o maior volume de processos. 

Todas as atividades listadas possuem 10 ou mais empresas em Recuperação Judicial. 

Expectativa é de alta, mas Nordeste permanece equilibrado

A análise ainda revela uma expectativa de alta nacional no número de RJs, até o final de 2025. Os motivos são os juros altos, crédito restrito e sinais de queda na economia brasileira e tal comportamento pode se repetir também em 2026. 

“Provavelmente a crise nas empresas também se alastra ao longo de 2026, devido ao ano eleitoral, o que gera incertezas no mercado e consequente manutenção da restrição de crédito”, acrescenta o especialista. 

Entretanto, na avaliação do sócio responsável pelo monitor RGF, no Nordeste o contexto é diferente, devido a estabilidade da base econômica. “No Nordeste, porém, a base atual é mais estável, o que abre espaço para uma perspectiva mais favorável. Além da redução observada no pilar de Construção & Energia & Saneamento, a maioria dos outros setores da região também registrou queda ou estabilidade no número de processos ao longo deste ano, sugerindo um cenário mais equilibrado para os próximos trimestres”. 

IRJ ajuda empresas a agir antes da crise

Ferramentas como o IRJ permitem identificar precocemente sinais de dificuldade, além de oferecer comparações setoriais e regionais. A utilização desse índice auxilia na construção de cenários e no desenho de estratégias, como renegociações de dívidas, gestão de estoques e proteção cambial. Ações preventivas reduzem a probabilidade de empresas entrarem em recuperação judicial ou, em casos mais extremos, como a falênciaAna.

Lições de Recuperação

Gallegos afirma que as empresas que conseguiram se recuperar seguiram alguns padrões: disciplina na execução, transparência com credores,  foco no essencial e governança e gestão profissionalizada. 

“Nossa experiência e expertise mostram que a recuperação judicial só funciona quando é tratada como um processo de transformação, não apenas de alívio financeiro. E atuar previamente, se reestruturando, antes que a crise interna na empresa se aprofunde é um dos principais fatores de sucesso”, finaliza. 

Sobre o Monitor RGF

O Monitor RGF da Recuperação Judicial é uma plataforma inédita que reúne dados oficiais da Receita Federal e acompanha a evolução da saúde financeira de empresas de pequeno, médio e grande porte no Brasil (exceto MEIs, ONGs, estatais e filiais).

A base permite uma leitura clara dos setores e regiões sob estresse financeiro, com atualizações trimestrais e séries históricas desde 2023

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Ana Júlia Silva

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