Artista Plástica paraibana Marlene Almeida consagra carreira depois da Europa com duas grandes obras na Bienal de São Paulo

Por Walter Santos

 

Depois de duas exposições exitosas em Londres e Bélgica, a artista plástica paraibana Marlene Almeida está iniciando exposição de duas grandes obras na Bienal de São Paulo denominadas Terra Viva e Museu das Terras Brasileiras (um recorte).

 

Ela própria aborda a exposição Terra Viva como nova instalação na Bienal:

 

“Terra Viva é uma instalação nova, produzida para a 36ª Bienal de São Paulo. No entanto, carrega referências de materiais, formas e vivências de vários momentos da minha jornada na arte, de cerca de setenta anos. Nesse percurso estão as lutas político-sociais com estudantes, artistas e intelectuais na cidade, e com camponeses na região canavieira do litoral norte da Paraíba”.

 

Ela acrescenta:

 

“As aventuras poéticas e as experimentações artísticas sempre estiveram presentes, conduzindo-me, desde os anos 1970, a uma pesquisa ininterrupta com pigmentos minerais e aglutinantes vegetais. Esta obra-inventário se complementa pelo recorte Museu das Terras Brasileiras — extensão de caráter mais técnico, porém igualmente poética —, contígua à instalação nesta Bienal, onde ressoa a ideia: “Nem todo viandante anda estradas — da humanidade como prática”.

 

E adiciona:

 

“A instalação reúne elementos diretos ou indiretos que se misturam da juventude à maturidade e à velhice: dos estudos cromáticos nas aulas de pintura na escola, passando pela participação no Grupo Geração 59, pelos movimentos políticos de esquerda dos anos 1960 e pelos movimentos ecológicos — ainda incipientes nos anos pesados da ditadura —, culminando com as discussões sobre aquecimento global e Antropoceno. Mesmo assim, esta obra não é sobre mim, mas sobre a natureza e a relação da humanidade com ela. É uma forma de atualização (pós-humanista) da minha formação em filosofia, da ideologia original que me moldou, a dialética materialista, para uma dialética com a natureza. Trata-se de deslocar o foco do humano como centro da história para uma visão em que a vida da terra, suas forças e temporalidades, também participam do pensamento e da criação. Saio de cena como artista para dar voz e matéria à terra e àqueles que nela trabalham: os camponeses”.

 

Ela observa:

 

“O título Terra Viva não surgiu por acaso, nem para cumprir um rito do sistema da arte. Assim como minha história, nasceu dos primeiros encontros com a formação geológica mais importante da minha trajetória, a Formação Barreiras, que duela com a ação erosiva das ondas do mar ao longo da costa brasileira. Suas falésias (terras) vivas exibem camadas e paletas extremamente variadas de cores e texturas, que vão da fina argila aos blocos rochosos. Logo no início das expedições de pesquisa pelas falésias e locais de lavra de sedimentos da Formação Barreiras, soube da sua origem fluvial. Pensar que os pigmentos que utilizo provêm, em grande parte, de pacotes de argila depositados por inundações de rios de milhões de anos (em torno de 20 milhões) amplia meu conceito de tempo e de vida.

 

Se não nasceu agora, o título Terra Viva também não permaneceu adormecido em meu acervo teórico-conceitual. Hoje, identifica uma obra-instalação; há 36 anos, nomeava toda a exposição que apresentei na antiga Galeria Ars, Artis, em São Paulo, com honrosa apresentação de Jacob Klintowitz e Mário Schenberg. Nessa mostra havia paisagens mais figurativas, quase retratos das feições geomorfológicas que me fascinavam e, contornando todas as paredes da galeria, pequenas porções de terra, acomodadas em fôrmas de madeira antes usadas na produção de rapadura. Essa linha de caixas multicoloridas, que corria pelo piso, ampliava minhas possibilidades técnicas e me encorajava a usar a terra não apenas como matéria-prima para pigmentos e tintas, mas como obra em si. Os procedimentos técnicos se fundiam com os processos criativos: desde as caminhadas para coleta de materiais e esboços, até minhas “bólides”de pesquisa e poética — bisacos, estojos, sacos, vidros, bolsos, sacolas e cadernetas de uma artista e ativista viandante.

 

Durante a Eco-92 (Cúpula da Terra), na exposição organizada pelo Movimento Nacional de Artistas pela Natureza, continuei misturando tecidos pintados, presos na parede e correndo pelo piso,caminhos de terra bruta.

 

A instalação atual, que agora se derrama pelo vão do segundo andar do Pavilhão da Bienal de São Paulo, é composta por um conjunto maior de faixas-caminhos de lona crua, pintados com pigmentos minerais de diversas regiões do Brasil, especialmente do Nordeste. Terras naturais ou preparadas, das tantas serras e vales que percorri. Cujos nomes coleciono na memória, como poesia: Serra dos Martins. Da Saudade. Do Moura. Do Espinho. Do Cipó. Serra da Copaóba. Chapada do Araripe. Dos Guimarães. Vale Vulcânico. Quadrilátero Ferrífero.

 

Saindo do alto, presas ao teto, as faixas se afastam umas das outras e se espalham pelo piso, formando uma grande falésia viva, com as marcas da dinâmica da terra: cortes, riscos, falhas, dobras, texturas. Lembram os processos do ciclo geológico, a eterna transmutação dos elementos. Cada faixa/leito encontra a barreira de blocos de arenito e conglomerados ferruginosos (lateritas), resgatados de algum colúvio antropogênico para uma falésia de arte.

 

Nela, processos de sedimentação, diagênese, intemperismo, denudação e corrida de detritos. A obra-instalação é fluxo e contenção, como minha dialética: uma alquimia mútua entre terra e arte. Na barreira-limite, velhos discos de arado — que tanto cortaram a terra — se transfiguram e suportam pedras, como se as acolhessem para um descanso, ou tentassem parar o tempo. No centro da falésia, um disco maior, que assim como os outros faz as vezes de almofariz, acolhe a terra vermelha e lembra nossos ancestrais, que há milênios esculpiram pedras dos primeiros instrumentos para moer as cores das primeiras pinturas. Não programei nem orientei o trabalho para isso, mas, ao final, olhando para a grande bacia sobre a laterita maior, vejo agora que criei uma espécie de tabernáculo para um ritual arte–terra–arte.

 

Terra Viva é fluxo e contenção, como minha dialética.

 

Ainda no segundo piso do edifício da Bienal de São Paulo, não muito distante da instalação de forma mais escultural, apresento outra: uma instalação-processo, o Museu das Terras Brasileiras. Para Terra Viva foi possível indicar uma data (2025) e usar a palavra “nova”; já aqui prevalece o processo, que se mostra e expande, confundindo ações mais antigas com as atuais, criando uma amostragem da longa cronologia de experiências com pigmentos minerais e aglutinantes vegetais, iniciada nos anos 1970.

 

O Museu das Terras Brasileiras integral não é uma instituição, mas um projeto de artista: uma grande coleção que consegui organizar durante todo este tempo. A montagem para a Bienal reúne parte do acervo de argilas coloridas, amostras de solos variados e fragmentos de argilominerais acomodados em vidros que lembram laboratórios, instrumentos de pesquisa e produção, cartelas de cores, mapas, rochas, minerais e cópias de cadernetas de campo.

 

Com essa espécie de resumo material da pesquisa, mostro um pouco da história das inúmeras expedições que me levaram a tantas regiões brasileiras, próximas ou distantes dos centros urbanos. Quando falo agora de terras, sinto a familiaridade de quem percorreu caminhos sem escolher o fácil, guiada pelo sonho das cores e paixão pelas paisagens — reais ou imaginárias. Lembro também a rica geografia do nosso país, dos milhares de municípios, e da toponímia herdada muitas vezes das populações originárias, que infelizmente desaparece aos poucos, perdendo sua beleza e afastando as populações do vínculo com a terra.

 

 

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