O agronegócio cresce no Nordeste, mas as condições de vida não acompanham o ritmo
Por Paulo Galvão Júnior (*)
Considerações Iniciais
O recente estudo elaborado pela Agenda Pública analisa os 50 municípios brasileiros com maior Produto Interno Bruto (PIB) Agropecuário e identifica os principais desafios socioeconômicos, que precisam ser enfrentados para que a prosperidade econômica gerada pelo setor se traduza em benefícios socioeconômicos concretos e abrangentes para a população rural.
Além disso, o levantamento da Agenda Pública classifica os municípios com o Índice de Condições de Vida (ICV), permitindo uma análise integrada entre desempenho econômico e qualidade de vida no Brasil.
Os Municípios com os Melhores ICV no Nordeste
O ICV – Município Agro é classificado em três faixas: Alta (acima ou igual a 0,60), Média (de 0,40 a 0,59) e Baixa (abaixo de 0,40), conforme a primeira edição da Pesquisa Agro & Condições de Vida, lançada pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) Agenda Pública, localizada no estado de São Paulo, com apoio e patrocínio da plataforma Transição Justa.
Segundo dados da Agenda Pública, a distribuição dos 50 municípios mais ricos do agronegócio brasileiro, liderados por Sorriso, no estado de Mato Grosso (MT), revela uma forte concentração regional. Esses municípios, que também apresentam os melhores ICV, estão distribuídos da seguinte forma: Centro-Oeste (31), Nordeste (11), Sudeste (3), Sul (3) e Norte (2).
O protagonismo do Centro-Oeste na produção agropecuária nacional, é seguido pelo Nordeste, que apesar de ocupar a 2ª posição em número de municípios, ainda enfrenta desafios na conversão da riqueza gerada pelo agronegócio em melhorias sociais concretas.
| Quadro 1. Os Municípios com os Melhores ICV no Nordeste | ||||
| Ranking Nordestino | Ranking Nacional | Município | Estado | ICV |
| 1º | 13º | São Desidério | BA | 0,51 |
| 2º | 33º | Baixa Grande do Ribeiro | PI | 0,47 |
| 3º | 34º | Santana do Mundaú | AL | 0,47 |
| 4º | 37º | Barreiras | BA | 0,46 |
| 5º | 38º | Luís Eduardo Magalhães | BA | 0,46 |
| 6º | 39º | Arapiraca | AL | 0,45 |
| 7º | 41º | Uruçuí | PI | 0,44 |
| 8º | 42º | Tasso Fragoso | MA | 0,44 |
| 9º | 45º | Formosa do Rio Preto | BA | 0,43 |
| 10º | 48º | Balsas | MA | 0,43 |
| 11º | 50º | Correntina | BA | 0,42 |
| Fonte: Agenda Pública. | ||||
Destaque no Nordeste é a Bahia
A Bahia (BA) se destaca na liderança regional, concentrando cinco dos onze municípios nordestinos com os melhores ICV, todos situados na região Oeste do estado. Essa concentração territorial revela um modelo produtivo intensivo, fortemente mecanizado e voltado à exportação, com ênfase em culturas como soja, milho e algodão, mas com problemas de bem-estar social para a população.
Esse contraste no ICV entre São Desidério (0,51) e Correntina (0,42) evidencia o descompasso entre o dinamismo econômico do agronegócio e as condições de vida da população rural, apontando para a necessidade urgente de políticas públicas que promovam inclusão social nos municípios mais produtivos em território baiano.
Outros estados
O Maranhão (MA) e o Piauí (PI) aparecem com dois municípios cada, inseridos na nova fronteira agrícola da MATOPIBA. Embora apresentem crescimento econômico expressivo na produção de milho, soja, arroz e feijão, o ICV de Uruçuí (PI) e de Tasso Fragoso (MA), ambos com 0,44, revelam que os avanços produtivos no agro não têm sido acompanhados por melhorias sociais equivalentes.
O estado de Alagoas (AL) marca presença com Santana do Mundaú e Arapiraca, dois municípios alagoanos que se destacam na produção de cana-de-açúcar, fumo e fruticultura, em especial, laranja lima e banana. Mas, ambos com ICV baixo de 0,47 e 0,45, respectivamente.
Dimensões do ICV
O ICV, calculado pela Agenda Pública, foi construído com base em seis dimensões temáticas: Educação, Saúde, Infraestrutura, Proteção Social, Desenvolvimento Rural e Gestão de Qualidade. Cada dimensão é composta por variáveis estatísticas oficiais, normalizadas numa escala de 0 a 1. O índice final reflete a média das seis dimensões de cada município analisado.
Entre os 50 municípios brasileiros com maior PIB Agropecuário, apenas 11 estão localizados na região Nordeste, o que evidencia o protagonismo da região no setor rural. No entanto, nenhum município paraibano figura nessa relevante lista, o que reforça os desafios estruturais enfrentados pelo estado na produção agropecuária.
Dentre os 11 municípios nordestinos, apenas São Desidério (BA) apresenta um ICV na faixa média, com 0,51. Os demais permanecem bem abaixo desse patamar, revelando um descompasso entre geração de riqueza agropecuária e qualidade de vida no campo. Correntina (BA), por exemplo, registrou o pior ICV do Nordeste e do Brasil entre os municípios líderes agropecuários, com índice de apenas 0,42, de acordo com a Agenda Pública.
Maior Destaque Municipal do Agronegócio e do ICV no Nordeste
Segundo o estudo Produção Agrícola Municipal 2023, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município baiano de São Desidério ocupa a 2ª posição entre os 50 municípios com maior valor de produção agrícola do Brasil e liderando o setor no Nordeste, com um valor de R$ 7,8 bilhões em 2023.
Localizado no Oeste da Bahia, São Desidério destaca-se pela produção de soja, milho e algodão, sendo referência nacional em produtividade e tecnologia agrícola. Além disso, o município lidera o ICV na região Nordeste, com um índice de 0,51, de acordo com a Agenda Pública, evidenciando sua eficiência e relevância no cenário agropecuário brasileiro e nordestino.
O município baiano de São Desidério reúne todos os elementos estratégicos para se tornar o primeiro do Nordeste a alcançar um ICV alto. Com terra fértil, abundância de recursos hídricos, infraestrutura agrícola avançada, produtores rurais qualificados e um clima propício à agricultura de alto rendimento, o município consolida sua posição como referência no agro.
Esse conjunto de vantagens impulsiona o desenvolvimento agropecuário, como também, fortalece a capacidade de São Desidério de promover avanços em áreas fundamentais como educação e proteção social, ampliando os benefícios do agronegócio para a população local.
A geração de novos empregos formais e a construção de novas e modernas obras públicas, como o Terminal Rodoviário José Rodrigues de Carvalho, serão fundamentais para melhorar o ICV da cidade baiana na próxima edição da Pesquisa Agro & Condições de Vida.
Principais Caminhos para a Inclusão Social
É imprescindível que as lideranças do agronegócio, as empresas do agro, as autoridades públicas, os trabalhadores rurais e a sociedade civil compreendam com profundidade o desafio da inclusão social nos municípios nordestinos. Os dados mostram que onze cidades, embora se destaquem como líderes do PIB Agropecuário, enfrentam vulnerabilidades persistentes em seis áreas essenciais para o bem-estar da população rural, pois nenhuma delas alcançou o ICV alto.
No Brasil, nenhum dos 50 do ranking dos municípios produtores agrícolas alcançou a faixa alta do ICV, definida como igual ou superior a 0,60. Os municípios que mais se aproximaram desse patamar foram Cascavel (PR), com índice de 0,57, e Campos de Júlio (MT), com 0,55, segundo a Agenda Pública. Esses dados evidenciam que, mesmo em cidades brasileiras de elevada geração de riqueza agropecuária, os desafios sociais permanecem e exigem atenção estratégica.
A determinação para alcançar o ICV alto no Nordeste exige políticas públicas integradas, investimentos em infraestrutura social, decisões empresariais eficazes e estratégias de desenvolvimento sustentável que aliem produtividade rural à melhoria efetiva das condições de vida. O principal objetivo deve ser garantir que o crescimento econômico se traduza em avanços sociais concretos, especialmente em cidades nordestinas que já demonstram alto potencial produtivo no agro, como os municípios de Luís Eduardo Magalhães (BA) e Balsas (MA).
Considerações Finais
Concluindo, o agronegócio cresce de maneira forte no Nordeste, mas as condições de vida não acompanham o ritmo acelerado. Logo, transformar o potencial agropecuário do Nordeste em qualidade de vida no campo não é apenas uma meta, é uma urgência. É preciso estimular a atividade econômica no setor rural e ao mesmo tempo investir no bem-estar social concreto para os trabalhadores rurais e pequenos produtores do agro.
Referências Bibliográficas
AGENDA PÚBLICA. Pesquisa Agro & Condições de Vida. Disponível em: file:///D:/Meus%20arquivos/Downloads/Agenda_agro_factsheet_01_2025-condicoes-v4-5.pdf. Acesso em: 22 ago. 2025.
IBGE. Produção Agrícola Municipal 2023. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/66/pam_2023_v50_br_informativo.pdf. Acesso em: 23 ago. 2025.

