O economiário e reconhecido presidente da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira, acumula ao longo da vida a sensibilidade e vínculo com os valores culturais e humanísticos do Pais daí ter tomado a iniciativa de fazer uma reflexão sobre um fato a envolver o grande pensador da economia brasileira, Celso Furtado.
É que, outro dia, em contato com amigo da cidade de Pombal, cidade de Celso Furtado, ficou sabendo que a casa onde ele nasceu e morou abriga na atualidade um depósito de insumos de um Armazém .
A reflexão do presidente da CEF termina incitando animadores culturais a se mobilizarem para buscar transformar a casa no Memorial Celso Furtado a merecer envolvimento de todos.
Eis o texto de Carlos Vieira, a seguir:
A Casa e o Armazém
“O desenvolvimento brasileiro só será sustentável se o mercado interno se transformar em um verdadeiro mercado de massa. E para que haja mercado de massa é indispensável redistribuir a renda, criar empregos e integrar a população de baixa renda ao circuito produtivo e de consumo. Sem essa inclusão, a modernização é apenas aparência e não projeto nacional.”
— Celso Furtado
Recentemente, movido por uma curiosidade afetiva, telefonei a um amigo e irmão de Pombal. Queria saber se a casa onde nasceu Celso Furtado ainda se erguia intacta. A resposta veio em forma de foto: sim, a casa continua de pé. Mas não como museu, não como espaço de memória, não como altar de um dos maiores intelectuais da América Latina.
Ali funciona um simples depósito, um armazém de insumos, depois de ter servido também como sede da Rádio Maringá AM. O imóvel, que poderia ser guardião da história, pertence hoje a uma rede privada de varejo, dedicado ao estoque de mercadorias.
A imagem me abalou. Foi como se a distância entre o sonho e a realidade se encurtasse em um só golpe: de um lado, Celso Furtado, que sonhou o Brasil como um projeto de inclusão, justiça e grandeza. De outro, a sua casa natal, reduzida a depósito, reflexo de um país que insiste em não preservar o que tem de mais valioso — a memória, a cultura, a inteligência crítica.
O choque não foi apenas estético. Foi intelectual e moral. Porque se uma nação não cuida da memória dos que pensaram seu futuro, arrisca-se a viver eternamente no improviso, condenada a confundir modernização com consumo imediato, progresso com fachada.
Talvez, naquela casa de Pombal, o menino Celso já intuísse que o Brasil só teria destino se transformasse sua massa empobrecida em cidadãos de direitos e consumidores de bens. Hoje, a casa se torna metáfora amarga: país que transforma a morada de um pensador em armazém corre o risco de transformar também seus sonhos em mercadorias de ocasião.
Carlos Vieira

