Por Luciana Leão
A força econômica do agronegócio brasileiro não tem se convertido em qualidade de vida para as populações das cidades onde o setor é mais pujante. É o que mostra a primeira edição da pesquisa Agro & Condições de Vida, lançada pela Agenda Pública, com apoio da plataforma de Transição Justa.
O levantamento analisou os 50 municípios com maior PIB agropecuário do país e revelou que, mesmo entre os gigantes do campo, nenhum alcançou patamar elevado no Índice Condições de Vida – Município Agro, criado para avaliar múltiplos aspectos de bem-estar social e de gestão pública.
Segundo o estudo, a média dos municípios foi de 0,48 numa escala de 0 a 1. O melhor desempenho foi de Cascavel (PR), com 0,57, enquanto Correntina (BA) registrou a pior nota: 0,42. O índice combina seis dimensões: Educação, Saúde, Infraestrutura, Proteção Social, Desenvolvimento Rural e Gestão de Qualidade.
“O Brasil é uma potência mundial na produção de alimentos. É fundamental que a riqueza gerada nos municípios do agro se converta em bem-estar concreto para as populações locais. Avaliar a qualidade do desenvolvimento é essencial para direcionar os esforços das prefeituras e os investimentos das empresas do agronegócio que buscam consolidar um compromisso genuíno com um modelo de crescimento moderno, resiliente e sustentável”, afirmou Sérgio Andrade, diretor executivo da Agenda Pública.
Nordeste x Centro-Oeste
Entre os 50 municípios com maior PIB do agro, 31 estão no Centro-Oeste e 11 no Nordeste. A comparação mostra que a única diferença estatística entre as duas regiões aparece em Gestão de Qualidade, em que os municípios nordestinos apresentam notas mais baixas. O caso de Santana do Mundaú (AL), com apenas 0,23, é um exemplo crítico.
Nas demais dimensões – Educação, Saúde, Infraestrutura, Proteção Social e Desenvolvimento Rural – o desempenho é semelhante entre as regiões, o que revela que a fragilidade é estrutural. Como destaca o estudo, “o PIB agropecuário e o tamanho da população não são determinantes para explicar o desempenho dos municípios nas dimensões de bem-estar social”.
Alguns casos emblemáticos ajudam a ilustrar essa desconexão. Em Balsas (MA), um dos principais polos agrícolas do Nordeste, na região do Matopiba-intitulada a nova fronteira do agronegócio-, a nota em Educação foi de apenas 0,18, a mais baixa entre todos os municípios analisados.
Na Bahia, o município de Correntina apresentou o pior resultado em Proteção Social, com 0,21. Já Formosa do Rio Preto, também na Bahia, embora figure entre os maiores PIBs do agro, mostra desempenho fraco em desenvolvimento rural.
No Centro-Oeste, o município de Sorriso (MT), detentor do maior PIB agropecuário do país, também não aparece entre os melhores colocados em qualidade de vida. A exceção que foge à regra é Sapezal (MT), que reúne bons índices tanto no campo econômico quanto em desenvolvimento rural.
O campo que não acompanha a riqueza
Entre todas as dimensões avaliadas, o desenvolvimento rural é o ponto mais frágil: a média ficou em 0,31, e nenhum município atingiu o nível considerado alto. Em Sapezal (MT), que lidera o ranking, a nota chegou a 0,43; em Alegrete (RS), caiu para 0,20.
A disparidade mostra que, mesmo nos territórios onde o agro é forte, as comunidades rurais ainda enfrentam baixa assistência técnica, pouca diversificação de renda e ausência de políticas consistentes para sucessão no campo e práticas agroambientais.
O relatório chama atenção para esse descompasso: “os municípios mais ricos em termos de PIB agropecuário não são, necessariamente, aqueles que apresentam melhores condições de desenvolvimento rural”. Ou seja, como conclui a Agenda Pública, “o crescimento do agronegócio não garante, por si só, prosperidade social; é preciso fortalecer a capacidade local de gestão pública e integrar políticas voltadas às pessoas”.
Saiba os 5 achados do estudo
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Ninguém no topo – Entre os 50 maiores PIBs do agro brasileiro, nenhum município atingiu índice considerado alto de condições de vida. A média geral foi de 0,48 numa escala de 0 a 1.
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Nordeste atrás em gestão – Única diferença clara entre regiões: os municípios nordestinos tiveram desempenho pior em Gestão de Qualidade, que mede transparência e capacidade administrativa.
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Educação no vermelho – Balsas (MA) registrou a pior nota em Educação, com apenas 0,18.
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Renda não vira proteção – Correntina (BA), mesmo com forte presença do agro, teve a pior nota em Proteção Social, 0,21.
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Desenvolvimento rural é o gargalo – Nenhum município alcançou nível alto nessa dimensão. Sapezal (MT) foi o melhor, com 0,43, e Alegrete (RS) o pior, com 0,20.

