Saneamento: Apenas 12 municípios investem acima da média considerada necessária para a universalização dos serviços

As disparidades regionais permanecem como um dos principais obstáculos à universalização do
saneamento básico. Municípios das regiões Norte e Nordeste, em sua maioria, figuram nas últimas
colocações na 17ª edição do Ranking do Saneamento com o foco nos 100 municípios mais populosos do Brasil, com déficits expressivos em todos os indicadores analisados. Por outro lado, municípios do Sul e Sudeste concentram a maior parte dos bons desempenhos, demonstrando maior capacidade de investimento, regulação e operação dos serviços.

“Esta edição do Ranking ressalta que, além da necessidade de os municípios garantirem o acesso
universal à água potável e à coleta de esgoto, o tratamento do esgoto se destaca como o indicador
mais distante da universalização nas cidades, representando o principal desafio a ser superado”, destaca Luana Siewert Pretto, presidente Executiva do Instituto Trata Brasil, um dos responsáveis pelo estudo em parceria com a GO Associados.

Para produzir o ranqueamento, foram levados em consideração os indicadores mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), ano-base 2023, publicado pelo Ministério das Cidades, além de uma ponderação de pesos na evolução dos indicadores estabelecida em metodologia criada em parceria com a consultoria GO Associados.

Debate precisa ser municipalizado

Para a executiva do instituto Trata Brasil  o debate sobre o saneamento deve ser levado para o centro das discussões dos Prefeitos e Prefeitas em todo Brasil e priorizá-lo nas políticas públicas.  Além dessa avaliação, Luana Pretto, reforça que o Brasil aos sediar um dos maiores
eventos de sustentabilidade do mundo, a COP-30, revela a necessidade dessa temática ser discutida
profundamente. ” Os temas de água e saneamento devem ser tratado com mais responsabilidade a fim de que se encaminhem soluções coletivas que vão de encontro à universalização dos serviços no menor tempo possível”, disse.

Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados avalia que o Ranking do Saneamento de 2025,
continua a refletir as desigualdades regionais do Brasil também no acesso ao saneamento.

Enquanto preponderam nas 20 primeiras posições municípios localizados nas regiões Sudeste,
Centro-Oeste e Sul do país, as 20 últimas são majoritariamente compostas por municípios das
regiões Norte e Nordeste. O investimento médio por habitante nos 20 municípios piores colocados
é de apenas R$ 78,40, quase 3 vezes menos do que o necessário para a universalização dos
serviços de água e esgoto até 2033. “É, portanto, fundamental que os investimentos que permitem
a evolução dos principais indicadores de acesso à água e coleta e tratamento de esgoto sejam
ainda mais intensos nestas regiões”, disse o presidente da GO Associados.

O Ranking do saneamento 2025

O Ranking é composto pela análise de três “dimensões” distintas do saneamento básico de cada
município: “Nível de Atendimento”, “Melhoria do Atendimento” e “Nível de Eficiência”1. Nesta edição, Campinas (SP) foi a primeira colocada, seguida por Limeira (SP) e Niterói (RJ).

Um ponto importante é que se observou uma aparente queda nos resultados gerais de
saneamento reportados pelo SINISA de 2025, que considera os dados do ano de 2023, quando
comparados aos dados do SNIS de 2024 (ano-base 2022). No entanto, essa percepção pode ser
explicada pela atualização metodológica em razão da publicação do Censo de 2022. Nos últimos
anos, em razão do atraso na coleta e divulgação dos dados do Censo, estimava-se um número
maior de pessoas por residência.

Com a divulgação dos dados, contudo, descobriu-se que a população residente não aumentou como se projetava anteriormente. Assim, os números relativos a 2023 podem representar um ajuste à realidade do país, não indicando uma piora objetiva na cobertura do saneamento no país, mas sim uma medição mais refinada e precisa.

Quem são os 20 melhores e piores municípios

Dos 20 melhores municípios do Ranking de 2025, nove são do estado de São Paulo, cinco são do
Paraná, três são de Minas Gerais, dois são de Goiás e um é do Rio de Janeiro.

Dos 20 piores municípios do Ranking de 2025, quatro são do Rio de Janeiro, quatro de Pernambuco e três são do Pará.

Do restante, quatro pertencem à macrorregião Norte, três situamse na macrorregião Nordeste, um, no Centro-Oeste, e ainda outro, na região Sudeste. Além disso, dos 20 piores municípios ranqueados em 2025, 8 são capitais de seus estados: Recife (PE), Maceió (AL), Manaus (AM), São Luís (MA), Belém (PA), Rio Branco (AC), Macapá (AP) e Porto Velho (RO).

Análise

Segundo os dados expostos é possível observar uma relação positiva entre o volume de investimentos e os avanços nos indicadores de saneamento básico. Neste sentido, um indicador notável é o Investimento Médio por Habitante, pois permite comparar os grupos dos 20 melhores e dos 20 piores com base na distância relativa dos níveis de investimentos em relação àquele estabelecido pelo PLANSAB como o ideal a ser conduzido para a universalização do saneamento nos municípios, de R$ 223,82 por habitante.

Os 20 melhores municípios apresentaram um investimento anual médio no período de 2019 a 2023 de R$ 176,39 por habitante, cerca de 20% abaixo do patamar médio necessário para a universalização. Neste caso, contudo, como muitos desses municípios já possuem indicadores em estágios mais avançados de desenvolvimento ou universalizados, eles podem apresentar valores abaixo da média nacional, sem comprometer o atendimento às metas do Novo Marco Legal do Saneamento Básico e da Portaria 490/2021.

Já os 20 piores municípios tiveram um investimento anual médio no período de 2019 a 2023 de R$ 78,40 por habitante, cerca de 65% abaixo do patamar médio necessário para a universalização, de R$223,82. No caso desses municípios, por terem indicadores muito
atrasados e distantes da universalização, ter um investimento anual médio por habitante abaixo
do significa que a tomada de decisão municipal em benefício do saneamento é urgente.

Diz a análise do Instituto Trata Brasil e GO Associados que  essa diferença no volume de investimentos proporciona melhoras significativas nos indicadores de saneamento básico. No caso dos 20 melhores, o Indicador de Atendimento Total de Água (ITA) é 21% superior àquele encontrado no grupo dos 20 piores municípios. O Indicador de Atendimento Total de Esgoto (ITE) é 242% superior, e o Indicador de Tratamento Total de Esgoto (ITR) possui valor 168% maior.

De maneira semelhante, tem-se que o grupo dos 20 melhores apresenta nível de eficiência melhor
do que aquele verificado no grupo dos 20 piores. O Indicador de Perdas na Distribuição (IPD)
situa-se 44% abaixo no primeiro grupo, e o Indicado de Perdas por Ligação (IPL) apresentou 417
L/ligação/dia ou 60% a menos na mesma comparação.

Quem mais subiu e quem mais desceu no Ranking 2025

O Ranking do Saneamento 2025 destaca os municípios que mais variaram de forma positiva e
negativa em relação ao Ranking de 2024. Os indicadores do SINISA buscam estabelecer um paralelo entre os dados disponíveis e a realidade observável de cada município, em termos de infraestrutura de saneamento. Portanto, grandes variações devem ser avaliadas com bastante cautela.

Destaque para Campos dos Goytacazes (RJ), município que lidera a variação positiva, indo da
45ª posição em 2024 para a 26ª em 2025. Dos municípios com maiores variações positivas, três
são da região Sudeste, um da Sul e um do Centro-Oeste.

Para a maioria dos munícipios listados com as piores variações, houve uma regressão no nível de atendimento de água. Uma possível explicação para a queda do atendimento à população, segundo o estudo, é que mesmo com o aumento do número de economias ativas de água, é a queda na relação habitante/economia apresentada para muitos municípios no Censo 2022: ainda que se esteja expandindo fisicamente os serviços, o atendimento por habitante seria menor que o projetado anteriormente. Assim, os números de 2023 seriam mais fidedignos à realidade brasileira.

Cobertura de saneamento nas capitais

Das 27 capitais brasileiras, somente sete possuem ao menos 99% de abastecimento total de água.
E embora a média do indicador seja de 94,11% a situação no país é bastante heterogênea, pois
há capitais na macrorregião Norte com indicadores próximos ou abaixo de 50%, como Rio Branco
(AC) com 53,13%, Macapá (AP) com 40,04% e Porto Velho (RO), com 35,02%.

Em relação à coleta total de esgoto, apenas seis capitais têm índice de mais de 90% de
atendimento: Goiânia (GO), São Paulo (SP), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Boa Vista (RR) e Porto Alegre (RS). Contudo, assim como no indicador anterior, há capitais na macrorregião Norte com taxas de esgotamento sanitário baixas, inferiores a 10%. São os casos de Porto Velho (RO), com 9,27%, e Macapá (AP), com 7,78%.

Tratamento de esgoto: Salvador tem destaque positivo

No que diz respeito ao tratamento de esgoto, os gargalos parecem ainda maiores, pois somente
cinco capitais apresentam ao menos 80% de tratamento de esgoto: Curitiba (PR), Brasília (DF), Boa Vista (RR), Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA).

No contrário, quatro capitais trataram menos de 20% do esgoto coletado: Porto Velho (RO), com 12,18%, Macapá (AP), com 14,42%, São Luís (MA), com 15,89%, e Teresina (PI), com 19,19%.

Os indicadores de perdas de água também são elevados. No caso de perdas na distribuição,
somente Goiânia (GO) e Teresina (PI) apresentaram índices menores que 25%, com 12,68% e
24,20%, respectivamente, e são exemplos para o país.

A análise dos investimentos médios nas capitais brasileiras, entre 2019 e 2023, a valores de fins
de junho de 2023, indica que no período foram investidos cerca de R$ 30,5 bilhões em valores
absolutos nas capitais, sendo que o município de São Paulo (SP) realizou quase 40% desse
montante, com aproximadamente R$ 11,5 bilhões. Naturalmente, foi a cidade com o maior
investimento total no período, seguida pelo Rio de Janeiro (RJ) com R$ 2,9 bilhões, e por Fortaleza
(CE) com R$ 1,8 bilhão.

Observando o investimento médio anual por habitante, é possível notar que Cuiabá (MT) foi a
capital que mais investiu, com R$ 415,02 por habitante. A segunda capital que mais investiu em
termos per capita foi São Paulo (SP) com R$ 198,97 por habitante, seguida de Campo Grande
(MS) com R$ 195,31 por habitante.

 

 

*Edição será divulgada nesta terça-feira (19).
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Luciana Leão

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