A Fundação Banco do Brasil selecionou, por meio de edital, a Associação das Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu de Miguel Alves, no norte do Piauí, para criar a primeira fábrica artesanal de sabonetes feitos com óleo de coco babaçu. O grupo, formado por dez mulheres, já produz azeite, óleo extra virgem, massa do mesocarpo e biscoitos, aproveitando uma matéria-prima abundante na região.
A fábrica será instalada na localidade Retrato, a 20 km do centro do município, onde há extensas áreas de babaçuais de livre acesso às quebradeiras. O projeto prevê a reforma do espaço que vai abrigar a produção, além de cursos sobre fabricação de sabonetes, gestão de negócios e desenvolvimento de embalagens com materiais reaproveitados dos próprios babaçuais.
Segundo a presidente da associação, Maria Lúcia, a iniciativa vai ampliar a renda das famílias e fortalecer o empreendedorismo local. “Hoje vivemos principalmente da venda de mesocarpo, azeite de coco, óleo extra virgem e biscoito, fornecendo para programas como Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), voltado para o fornecimento de produtos para a merenda escolar; trabalhamos com a Conab e temos também o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). A fábrica de sabonetes será uma nova oportunidade para gerar trabalho e renda, com grande potencial de mercado”, afirma.
Mercado
De acordo com dados do Fundo Brasil, mais de 10 mil quebradeiras de coco atuam no Piauí, realizando a coleta e o trabalho artesanal, muitas vezes de forma individual, com uso de cofos artesanais e métodos tradicionais de quebra.
A cadeia produtiva é ampla e diversificada, gerando mais de 50 subprodutos — de alimentos como azeite, creme, leite, bolo e biscoito, a itens como ração, sabão, sorvete e artesanatos. Toda parte da palmeira é aproveitada: folhas, casca, caule e amêndoa.
Um levantamento citado pelo site da Assembleia Legislativa do Piauí mostra que, para obter apenas 1 kg de coco babaçu, é preciso quebrar entre 40 e 60 frutos, trabalho que pode levar mais de uma hora. O litro de azeite de babaçu chega a valer cerca de R$ 20, enquanto o quilo do coco seco, sem casca, custa em média R$ 4.
O babaçu é uma palmeira nativa do Nordeste e da Amazônia, considerada vital para muitas comunidades. Além do valor econômico, seu uso incentiva a preservação dos babaçuais e garante matéria-prima para futuras gerações.
Para Alzira Sales Pereira, integrante da associação, o projeto da fábrica une benefícios econômicos, sociais e ambientais. “A fabricação dos sabonetes vai dar visibilidade ao nosso trabalho e valorizar o cuidado que temos com a preservação dos babaçuais, garantindo matéria-prima para hoje e para o futuro”, diz.
A expectativa é que a nova unidade produtiva gere impacto direto na economia local e reforce a importância da preservação das palmeiras, assegurando a continuidade dessa cadeia produtiva tradicional e sustentável no Piauí.
Conheça mais sobre a Lei do Babaçu Livre no Piauí
Sancionada em dezembro de 2022, a Lei nº 7.888, conhecida como Lei do Babaçu Livre, reconhece o extrativismo tradicional como patrimônio cultural do estado e garante o acesso livre aos babaçuais. Entre suas medidas, estão:
Proibição da derrubada das palmeiras; Vedação ao uso de agrotóxicos e queimadas; Proteção dos cachos e manejo sustentável; Destinação de terras públicas para regularização de territórios tradicionais de quebradeiras de coco.

