Exclusivo: Celso Amorim reage ao tarifaço de Trump e defende multilateralismo na relação diplomática

 Por Walter Santos

 

O ex-chanceler Celso Amorim criticou fortemente as medidas de aumento das tarifas em 50% pelos EUA ao Brasil ao afirmar que inexistem argumentos lógicos. Ele defendeu entendimentos, mas admitiu que o Brasil poderá acionar a Lei da Reciprocidade Comercial e reagir com firmeza.

“Se tiver que retaliar, temos que atingir onde dói mais”, disse. Ele ainda considera como relevante o protagonismo do BRICS na construção de uma nova ordem mundial mais equilibrada.

Revista NORDESTE – Como o senhor define a política externa do governo Trump?

CELSO AMORIM – É muito difícil tentar encontrar qualquer lógica ou raciocínio que identifique causa e efeito de maneira clara.

NORDESTE – O mundo vive um período de escalada muito perigosa a exigir dos Líderes Globais condições efetivas de parar / barrar guerras genocidas e diversos outros graves problemas. Como o sr.r vê o enfraquecimento da ONU nessa mediação, já que foi criada para esse papel? Até quando será assim?

CELSO AMORIM – É muito triste ver esse enfraquecimento da ONU. O presidente Lula sempre tem dito que nós defendemos o sistema multilateral e o ápice do sistema multilateral é a

Organização das Nações Unidas. A principal função dela é evitar a guerra, livrar as gerações futuras do flagelo da guerra, como tá dito na carta, e capacidade das Nações Unidas de agirem demonstra que é indispensável reformar a própria ONU.

NORDESTE – Enfim, de quem é essa tarefa?

CELSO AMORIM – Eu acho que isso não é uma tarefa só do secretário-geral. É uma tarefa mais ampla e será necessário reformar a carta tornando o Conselho de Segurança mais representativo, tornando o Conselho de Segurança mais efetivo e mais justo.

NORDESTE – O fato é que nada anda com ventos constantes dos EUA comumente favorável a Israel sem permitir a criação do Estado Palestino. Há outra saída que não seja a existência desse Estado?

CELSO AMORIM – É preciso que haja um mundo mais equilibrado, um mundo que realmente corresponda à multipolaridade, que na prática já tá ocorrendo, mas que ainda não está refletida nos organismos internacionais.

NORDESTE – Como assim?

CELSO AMORIM – Eu acho que a própria existência dos BRICS como um equilíbrio para o G7 é um importante elemento desse aspecto, mas é indispensável também que a própria ONU tenha modificações para refletir a multipolaridade, porque tem que ser multipolaridade com multilateralismo.

NORDESTE – A escalada armamentista impera diante de urgências no trato de políticas climáticas e o império da miséria e da fome. O Sr tem esperança de ações dos países desenvolvidos no trato desses graves problemas?
CELSO AMORIM – O Brasil tem que ter esperança. Todos nós temos que ter esperança, porque senão seria o fim da humanidade. Agora, de fato, nós lamentamos essa corrida armamentista, países ricos sempre alegaram que têm poucos recursos para ajudar no desenvolvimento, poucos recursos para ajudar na sustentabilidade do mundo, inclusive combater a poluição que eles próprios criaram, foram os primeiros a criar, então, temos que manter esperança. E aí é difícil, é uma luta.

NORDESTE – Qual o papel do presidente Lula nesse contexto de enfrentamentos?
CELSO AMORIM – O presidente Lula tem lutado, por isso, todos nós temos lutado por isso, mas temos que manter esperança, apesar de todas as dificuldades. Agora, repito, a corrida armamentista é um mal que nós não desejamos.

NORDESTE – A corrida armamentista se mantém, agora mesmo com muitos recursos para a Defesa em detrimento da solução aos problemas sociais…
CELSO AMORIM – Muitas das guerras começaram assim, com apenas corridas armamentistas que depois não podem ser contidas.

NORDESTE – Como o senhor encara novamente o papel do presidente Lula diante da cena global e qual o papel determinante dele na conjuntura internacional frente a essa situação de conflitos?

CELSO AMORIM – O presidente Lula é incontestavelmente um grande líder e, sobretudo, um grande líder dos países em desenvolvimento. E ao mesmo tempo ele procura manter diálogo com todos os países desenvolvidos e com todos os lados. Tem bom diálogo com o presidente Putin, tem um excelente diálogo com o presidente Xi Jinping, mas tem também um bom diálogo com o presidente Macron e com outros líderes ocidentais. Então eu acho que ele é uma pessoa que pode realmente ajudar. Agora, evidente, cada país é soberano. Nós temos ouvido coisas pouco animadoras da parte dos países desenvolvidos, inclusive europeus e, portanto, é preciso muita luta, muita persistência para conseguirmos avançar nessa direção de menos guerra, mais paz e mais desenvolvimento.

NORDESTE – por que o mundo, na sua opinião, silencia diante de catástrofes como a Guerra no Oriente Médio e Ucrânia?
CELSO AMORIM – Eu acho que na realidade, é pior do que o silêncio. Há muito rufar de tambor no sentido errado, no sentido até mesmo de estimular as guerras. Eu acho que há da parte da Europa, uma russofobia que não se compreende, porque na realidade, se há um país que foi invadido várias vezes, foi a própria Rússia, né?

NORDESTE – Explique melhor…

CELSO AMORIM – E já isso dizia o historiador famoso Arnold Toynbee num artigo que ele escreveu. Na realidade, foi uma aula que ele deu para BBC e depois foi transformado num artigo, num pequeno livro, em que que a Rússia foi invadida pelos Cavaleiros Teutônicos, pela Confederação Polaco lituana e e obviamente por Napoleão e Hitler. Então, há uma russofobia, um pavor que, a meu ver, não se justifica e isso dificulta a paz. Agora, é claro que também não é não foi positivo que a Rússia tenha procurado resolver o seu problema ucraniano pela invasão.

NORDESTE – Como enfrentar tamanha situação?
CELSO AMORIM – Eu acho que deveria ter se procurado esgotar os meios diplomáticos e isso não foi feito a contento. No caso da Ucrânia especificamente.

NORDESTE – Mas há outro grande e grave problema no caso o Oriente Médio…

CELSO AMORIM – No caso do Oriente Médio, as ligações de países europeus todos com Israel, inclusive na área militar, porque Israel é incontestavelmente um produtor avançado de produtos militares, produtos, softwares, torna mais difícil e é lamentável que não reconheça que é um genocídio.

NORDESTE – Genocídio?

CELSO AMORIM – Sim. Isso não é um conflito entre Israel e Palestina, é uma guerra de genocídio. Evidente que também, nós não podemos de maneira alguma, aceitar ações terroristas como a do Hamas. E o governo brasileiro foi muito claro em condenar essas ações terroristas, mas a reação é totalmente desproporcional e é absolutamente chocante ver mulheres e crianças que estão numa fila de comida serem mortos da maneira que tá ocorrendo.

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Wallyson Costa

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