Rosa Freire d’Aguiar, viúva de Celso Furtado, expõe encontro com presidente de Cuba no BRICS contando como país sobrevive

Durante a reunião histórica do Brics no Rio Janeiro entre tantos encontros especiais registrados no evento, um deles atraiu a presença da escritora e multimídia Rosa Freire d’Aguiar acompanhando e/ou participando de encontro com o presidente de Cuba, Miguel Diaz Canel, cobrando como o país sobrevive à odienta perseguição dos EUA ao país latino-americano.

Ela conta: Encontro com o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, que estava no Rio para a Reunião dos Brics (por ora, o país é “parceiro” do bloco). Sala de um hotel no Flamengo. Plateia de políticos fluminenses (poucos), escritores, sindicalistas, jornalistas (poucos), brasileiros que moraram em Cuba, todos solidários ao país, frei Betto, João Pedro Stedile.

E observa:

O presidente é um homem bonito, alto, de fala mansa e rápida. Ponderado e lúcido. Por hora e meia estendeu-se sobre a situação de Cuba. Alarmante. Falou das imensas dificuldades decorrentes do bloqueio econômico que sufoca a ilha há sessenta anos. Faltam remédios, peças de substituição de maquinária, alimentos, petróleo (apagões quase diários). 

Bem como continua:

Boicotes americanos de todo tipo, até mesmo nas atualizações de aplicativos no celular e no computador: você tem uma versão do app tal, mas já não consegue atualizá-lo. Diplomatas cubanos servindo no exterior têm dificuldade para abrir uma conta no banco. E por aí vamos. 

Díaz-Canel só se refere aos Estados Unidos como ao “Império”. 

Não faz propriamente distinção entre os democratas e os republicanos — ambos já promoveram atos inadmissíveis contra o país, embora os republicanos, em especial com Trump e um chanceler, Mark Rubio, que é filho de cubanos (de Miami), sejam mais perversos e, tudo indica, não pretendam abrandar o bloqueio. 

Ao contrário. O presidente de Cuba se referiu a um Plano Santa Fé, que trumpistas já teriam desenhado, para saber como agir em Cuba “depois da queda do governo socialista”.

Mas Díaz-Canel foi incisivo: não há solução? Há, sim: a resistência. Resistir, resistir avançando, sempre. “Inventamos o conceito de Resistência cultural”, diz ele. 

Desdobrando o conceito, ele lista umas trinta frentes em que seu governo vem atuando: os referendos populares como exercício democrático; a aprovação por ampla maioria do Código das Famílias, “pois hoje há todo tipo de famílias” (leiam-se legalização de casamento entre pessoas do mesmo sexo, maternidade de substituição etc); programas de maior proteção para infância e adolescência; “encontros com a História”, para levar os estudantes a melhor conhecer a história e a cultura de Cuba. 

O presidente pontuou seu discurso com termos que raramente vemos nos políticos pátrios: ética — ideologia —  luta contra os egoísmos — valorização da espiritualidade. 

Pelo que deu para perceber, o grande perigo é, como disse Díaz-Canel, a “separação entre as gerações anteriores — a que viveu a Revolução dos anos 60, a que se beneficiou de seus primeiros frutos — e a geração mais jovem”. 

Se houver essa separação, os cubanos na faixa de 15-20 anos poderão se tornar, diz ele, muito mais “consumistas, egoístas”, criando assim uma “separação ideológica” definitiva com os “revolucionários” mais velhos. E os ideais socialistas desmoronariam .

Impressiona a determinação, a firmeza do presidente. Mas aqui e ali, em sua fala, às vezes me veio a sensação (que tentei enxotar) de que estávamos diante de um doente numa UTI, a quem se aplicam os tais cuidados paliativos. 

Raras foram as referências do presidente a reformas estruturais, que poderiam garantir um futuro mais sólido à ilha.

Até quando a sociedade cubana resistirá e avançará. É difícil saber. Que Cuba vença essa ingente batalha cultural.

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Walter Santos

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