Em setembro de 1993, em campanha pela presidência da república, falando a apoiadores em Ariquemes (Rondônia), Luiz Inácio Lula da Silva disse com todas as letras que no Congresso Nacional havia pelo menos 300 picaretas, trabalhando contra o Brasil.
Já se passaram 32 anos que essa carapuça foi aproveitada pelos roqueiros do Paralamas do Sucesso, que transformaram a afirmação num hit musical, sucesso de Norte a Sul do país.
A repercussão foi imediata, e estrondosa. Lula não foi eleito, e até hoje não se sabe se ele acha que esse número de picaretas diminuiu, aumentou ou não existe mais.
Conforme pesquisa recente da GENIAL QUAEST, 55% dos deputados consultados, acham que as chances de que qualquer agenda enviada pelo Governo ao parlamento tem chances reduzidas de aprovação.
A pesquisa revela também que 58% dos deputados consultados acham que Lula não fez uma reforma ministerial efetiva, capaz de ampliar a governabilidade. Em síntese, deixa no ar que qualquer desatenção pode ser a gota d’água.
Analistas políticos com mais tempo de estrada, não batem o martelo se de fato as feridas do passado afetam totalmente essa relação pouco afetiva dos dias de hoje. Mas identificam que muitas das feridas ainda estão abertas.
O raciocínio tem o respaldo da pesquisa, que atesta que 45% dos deputados têm o perfil ideológico da direita, seguido por 25% do centro. Vale lembrar, também, que a mesma pesquisa aponta que o trabalho do atual presidente da casa tem 68% de aprovação.
A relação entre o executivo, com Lula no comando, e a Câmara, com o Deputado Hugo Motta atuando como líder, foi agravada recentemente, após o Governo buscar no Supremo Tribunal Federal a aprovação do Decreto presidencial que pede o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
O embate, que está no ar, traz também Davi Alcolumbre, presidente do Senado, para a mesma discussão.
Para o Governo aumentar o imposto sobre operações financeiras se faz necessário, e sem ele o buraco nas contas públicas será desastroso.
Ainda nos trâmites burocráticos, a questão jurídica que será comandada pelo STF, na visão dos parlamentares é interpretada como uma agressão, e acirra uma polêmica que trará consequências danosas ao governo e também junto à opinião pública.
Cada poder luta por seus direitos, mas o que fica evidente é que por mais que o tratamento entre as partes se mantenha ainda dentro do equilíbrio que o bom senso exige, é difícil não admitir que o ambiente que já estava ruim caminhe para algo ainda pior.
O episódio, que tudo indica, reserva capítulos de intensa discussão jurídica, é visto por especialistas como um retrocesso, para ambos os lados.
Pelo lado político, não há como desvincular o total desprezo do presidente da Câmara, Hugo Motta, se fazendo de difícil para um diálogo mais aprofundado sobre a questão. Sua atitude, em apressar a votação de uma medida de tamanha importância, sem melhor avaliar, foi considerada absurda pelo presidente da república.
Nesse particular, as implicações de cunho político são inevitáveis. Motta é do Republicanos, partido também do Governador Tarcísio de Freitas, potencial candidato à presidência da república. Seria ingenuidade total desvincular todas essas decisões que têm como palco o Congresso Nacional aos primeiros gestos que tenham como pano de fundo as eleições do ano que vem.
Na opinião dos governistas, principalmente, toda a movimentação que foi feita para que o decreto fosse derrubado no Congresso tem que ser obrigatoriamente relacionada a interesses políticos. Para o Governo, condenar o decreto é um ato inconstitucional, e teve viés político acentuado.
Para o Congresso apenas um direito legal do legislativo em aprovar ou não medidas de interesse do País. Teremos dias de tensão pela frente, inclusive com algumas faixas chamando a pauta de luta de ricos contra os pobres. Democracia é assim.
José Natal
Jornalista

