Matança de jumentos no Brasil acende alerta global: espécie corre risco de desaparecer

Um seminário internacional que acontece de 26 a 28 de junho, em Maceió, acende um alerta para uma realidade alarmante: o abate de jumentos no Brasil, principalmente para exportação de suas peles à China, já ameaça a sobrevivência da espécie no país.

Nas últimas três décadas, a população de jumentos encolheu 94% no Brasil. Se em 1999 existiam 1,37 milhão, hoje restam cerca de 78 mil animais — uma proporção de apenas 6 para cada 100 que existiam há 30 anos, segundo dados da FAO, IBGE e Agrostat.

O principal motivo é a fabricação do ejiao, produto tradicional na medicina chinesa, feito com o colágeno extraído da pele dos jumentos, usado para supostos benefícios à saúde.

A demanda crescente levou ao abate de mais de 5,9 milhões de jumentos por ano no mundo, com denúncias constantes de práticas ilegais, maus-tratos e impactos sociais.

O cenário brasileiro

O Brasil, especialmente a Bahia, se tornou um dos alvos desse comércio. O estado concentra os únicos três frigoríficos licenciados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) para esse tipo de abate.

Números oficiais do Ministério da Agricultura revelam a escalada:

  • 2010 a 2014: 1.000 jumentos abatidos

  • 2015 a 2018: 91.000 jumentos

  • 2018 a 2024: 248.000 jumentos

O destino dessas peles é, majoritariamente, a exportação para a China.

Legislação parada no Congresso

Diante desse cenário, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 2.387/2022, que propõe proibir o abate de jumentos para exportação. O texto já passou pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, mas aguarda votação nas duas Casas. Na Bahia, também segue sem desfecho o PL 24.465/2022, com o mesmo objetivo.

Estamos falando de um patrimônio genético único, adaptado ao semiárido brasileiro”, alerta Patrícia Tatemoto, coordenadora da ONG britânica The Donkey Sanctuary no Brasil, uma das articuladoras do seminário em Maceió.

Segundo ela, o argumento de que os animais perderam sua função na agricultura não justifica a matança. “Há três caminhos sustentáveis: viverem livres na natureza, seguirem apoiando a agricultura familiar ou serem reconhecidos como animais de companhia”, afirma.

Alternativas já existem

Pesquisadores defendem soluções tecnológicas para substituir o uso da pele dos jumentos. “A fermentação de precisão, por exemplo, permite produzir colágeno em laboratório, sem explorar animais”, explica Roberto Arruda, doutor em Economia Aplicada pela USP.

A mobilização brasileira segue o exemplo da União Africana, que em 2023 adotou uma moratória sobre o abate de jumentos, já implementada em países como Quênia, Nigéria e Tanzânia.

Não podemos continuar como o elo frágil de uma cadeia internacional que lucra com a morte de um animal essencial para comunidades vulneráveis”, reforça Pierre Barnabé Escodro, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Campanha global

Durante o seminário, será lançada a campanha internacional Stop The Slaughter (Parem o Abate), com a apresentação de um relatório inédito sobre os impactos da indústria do ejiao, especialmente na África.

No Brasil, a população pode apoiar o movimento acessando o site fimdoabate.com.br, que permite enviar cartas diretamente aos parlamentares pedindo a aprovação das leis que proíbem essa prática.

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Luciana Leão

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2 thoughts on “Matança de jumentos no Brasil acende alerta global: espécie corre risco de desaparecer

  1. Demanda da China por gelatina coloca jumentos em risco de extinção - Revista Nordeste 28 de junho, 2025 at 14:12

    […] O site da revista NORDESTE obteve o relatório com exclusividade.  Leia aqui  […]

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  2. O risco de extinção dos jumentos e o avanço da China no Nordeste, por Joacir Rufino de Aquino - Revista Nordeste 7 de julho, 2025 at 7:50

    […] Matança de jumentos no Brasil acende alerta global: espécie corre risco de desaparecer […]

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