O Brasil vive um dos piores cenários de queimadas das últimas quatro décadas. A primeira edição do Relatório Anual do Fogo (RAF), lançado nesta terça-feira (24) pelo MapBiomas, mostra que 30 milhões de hectares queimaram em 2024, volume 62% acima da média histórica (18,5 milhões de hectares).
De 1985 a 2024, 24% do território nacional — o equivalente às áreas do Pará e Mato Grosso somadas — foi atingido pelo fogo pelo menos uma vez, totalizando 206 milhões de hectares.
O levantamento revela que quase metade dessa área (43%) queimou nos últimos 10 anos, e 64% teve fogo mais de uma vez desde 1985. O Cerrado é o bioma mais recorrente, com 3,7 milhões de hectares queimando mais de 16 vezes em 40 anos.
“O relatório é uma ferramenta fundamental para apoiar políticas públicas, ajudando a planejar ações preventivas e combater incêndios com mais eficiência”, afirma Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.
Pantanal: aumento de 157% em 2024
O Pantanal teve 62% de seu território atingido por queimadas desde 1985. Só em 2024, a área queimada foi 157% superior à média histórica. É o bioma com mais megaincêndios: 19,6% das cicatrizes de fogo superaram 100 mil hectares.
“O fogo no Pantanal se relaciona com períodos de seca e a presença de vegetação natural. Em 2024, ele se concentrou no entorno do Rio Paraguai”, explica Eduardo Rosa, do MapBiomas.
Amazônia bate recorde histórico
A Amazônia registrou em 2024 a maior área queimada desde o início da série histórica: 15,6 milhões de hectares, 117% acima da média. Pela primeira vez, as florestas superaram as pastagens em área afetada: 6,7 milhões de hectares contra 5,2 milhões, respectivamente.
“O fogo não faz parte da dinâmica ecológica da floresta. Essa tragédia é resultado da ação humana, agravada por dois anos de seca severa”, alerta Felipe Martenexen, coordenador no MapBiomas.
Cerrado: avanço sobre formações florestais preocupa
O Cerrado queimou 10,6 milhões de hectares em 2024, 10% acima da média histórica. O bioma tem 89,5 milhões de hectares queimados desde 1985, o que corresponde a 45% de sua extensão total.
“Há uma mudança preocupante: o fogo está avançando sobre as formações florestais, ameaçando a biodiversidade e a resiliência do bioma”, destaca Vera Arruda, pesquisadora do IPAM.
Mata Atlântica: pior ano em quatro décadas
Em 2024, a Mata Atlântica teve 1,2 milhão de hectares queimados, 261% acima da média histórica, o maior registro desde 1985. O fogo atingiu principalmente áreas agrícolas e de pastagem, mas também trouxe forte impacto aos remanescentes florestais.
“O fogo não faz parte da dinâmica da Mata Atlântica. Seus efeitos trazem graves prejuízos ambientais, econômicos e sociais”, alerta Natalia Crusco, do MapBiomas.
Caatinga e Pampa: abaixo da média
Em 2024, a Caatinga teve 404 mil hectares queimados, 16% abaixo da média histórica. A maior parte ocorre em formações savânicas. “O dado é positivo, mas não representa uma tendência de queda consolidada”, pondera Soltan Galano, da equipe do bioma.
O Pampa também ficou abaixo da média, com 15,3 mil hectares queimados. “O fenômeno El Niño contribuiu, com mais chuvas no sul. Mas áreas pantanosas e campestres seguem vulneráveis a incêndios catastróficos”, ressalta Eduardo Vélez, do MapBiomas.
Concentração e recorrência
O relatório mostra que o fogo se concentra no período de agosto a outubro, que responde por 72% da área queimada no país, sendo 33% só em setembro. Além disso, 86% da área queimada no Brasil desde 1985 está concentrada na Amazônia e no Cerrado.

