Papo de Economia: Principais impactos na economia mundial com o conflito entre Israel e Irã

Por Paulo Galvão Júnior (*)

A 51ª Cúpula do G7, em Kananaskis, na província canadense de Alberta, terminou com a participação dos sete países membros: Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, RU e EUA, além da UE. O líder do Canadá como anfitrião convidou também para participarem em Alberta, os líderes da Austrália, Brasil, Índia, México, África do Sul, Coreia do Sul e Ucrânia. Sim, 15 líderes mundiais na Cúpula do G7 demonstraram muita preocupação com o conflito entre Israel e Irã.

O conflito Israel versus Irã entrou no sexto dia.  Infelizmente, 248 pessoas já foram mortas, sendo 224 no Irã e 24 em Israel. A Cúpula do G7, no Canadá, teve como principal preocupação os impactos econômicos globais do conflito israelense-iraniano, pois refinarias de petróleo e áreas de extração de gás natural estão entre os alvos estratégicos dos ataques, aumentando os riscos para a estabilidade econômica global.

Círculo vicioso

O agravamento do conflito entre Israel e Irã desencadeia um círculo vicioso do choque do petróleo e do gás, com impactos devastadores sobre a economia mundial. Esse choque energético provoca um encadeamento de impactos econômicos globais.

O conflito no Oriente Médio continua a gerar instabilidade nos mercados financeiros e nas cadeias de suprimentos globais. Os primeiros ataques com bombas e drones, por parte de Israel, mataram o chefe da Guarda Revolucionária do Irã, Hossein Salami, e o chefe das Forças Armadas Iranianas, Mohammad Bagheri, além de nove cientistas nucleares, que estavam enriquecendo urânio e, provavelmente, na construção da primeira bomba atômica iraniana ou de nove bombas nucleares.

Em resposta, com drones, mísseis balísticos e mísseis hipersônicos (cerca de 6.100 km por hora), por parte do Irã, atacaram as cidades de Tel-Aviv, Jerusalém e Haifa e entre outras cidades israelenses.

Ambos os ataques já provocaram alta nos preços do petróleo e gás natural; inflação global acelerada; desvalorização cambial em países emergentes; queda no consumo de bens e serviços; retração da produção agropecuária e industrial; expansão dos gastos públicos; queda no turismo internacional; e aumento dos custos logísticos internacionais.

Desdobramentos

Alta nos preços do petróleo e gás natural                                                       

i) O barril de petróleo tipo Brent subiu 8%, atingindo US$ 76,84 na abertura do mercado;

ii) O gás natural liquefeito (GNL) também sofreu aumento, chegando a US$ 7,31 por MMBtu;

iii) O risco de bloqueio do Estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, poderá elevar o preço do barril acima de US$ 100 e do GNL acima de US$ 10 por MMBtu.

Inflação global acelerada

i) O aumento dos custos de energia pressiona os preços de alimentos e bens de consumo duráveis;

ii) A inflação mundial pode subir entre 0,5 e 1 ponto percentual, dependendo da duração e da intensidade do conflito;

iii) Cada acréscimo de US$ 10 por barril de petróleo tende a elevar a inflação mensal em cerca de 0,2 ponto percentual.

Desvalorização cambial em países emergentes

i) A busca por ativos seguros, como o dólar norte-americano e o ouro, tem causado desvalorização de moedas em países emergentes;

ii) O dólar comercial no Brasil chegou a R$ 5,51, na abertura;

iii) O ouro atingiu US$ 3.406 por onça.

Queda no consumo de bens e serviços

i) A inflação e a desvalorização cambial reduzem o poder de compra das famílias;

ii) O consumo global pode cair entre 2% e 5%, afetando setores como turismo;

iii) Os consumidores priorizam gastos essenciais, reduzindo compras de bens duráveis, como eletrodomésticos, computadores, celulares e veículos.

Retração na produção agropecuária e industrial

i) O aumento dos custos energéticos e logísticos, impulsionado pela alta do petróleo e GNL, tem levado à redução da produção agropecuária e industrial em diversos países;

ii) O Brasil e outras nações dependentes de fertilizantes importados, como a ureia e o cloreto de potássio, produtos fornecidos por Irã e Israel, respectivamente, já enfrentam impactos diretos no agronegócio, com aumento de preços e risco de desabastecimento;

iii) O Brasil e outros países que importam petróleo, GNL, produtos farmacêuticos e bens industrializados também enfrentam dificuldades em várias cadeias produtivas. Entre os importados mais relevantes do Irã estão ureia, pistaches, uvas secas e morfina; de Israel, destacam-se cloreto de potássio, superfosfatos, tecidos, produtos químicos, produtos industrializados, como hidrômetros, máquinas e equipamentos.

Expansão dos gastos públicos

i) Governos estão adotando medidas emergenciais para conter os efeitos econômicos do conflito;

ii) Os déficits fiscais podem aumentar entre 1% e 3% do PIB em economias emergentes;

iii) Aumento dos gastos militares em Israel e no Irã.

Queda no turismo internacional

i) O fechamento do espaço aéreo em ambos os países, impactando diretamente o setor de viagens. Companhias aéreas internacionais suspenderam voos e passageiros enfrentam cancelamentos, remarcações e longos períodos de espera nos aeroportos. Além disso, algumas empresas aéreas estão redirecionando rotas para evitar a região do conflito, o que tem causado atrasos e prejuízos econômicos;

ii) A instabilidade no Oriente Médio tem impactado fortemente o setor de turismo em Israel. Hotéis, pousadas e operadoras de turismo relatam uma queda nas reservas, com a ocupação hoteleira abaixo de 20%. Esse cenário tenso tem gerado prejuízos estimados em US$ 500 milhões para os meios de hospedagem em Tel-Aviv, Jerusalém e Haifa;

iii) Israel recebe cerca de 4 milhões de turistas internacionais por ano, e o atual conflito poderá resultar em uma perda anual de até US$ 3 bilhões para a economia israelense.

Aumento dos custos logísticos internacionais

i) O encarecimento dos fretes marítimos, nos navios petroleiros, metaneiros e comerciais, além dos fretes aéreos, têm impactado cadeias de suprimentos globais;

ii) Os fretes aumentaram entre 8% e 12%, elevando os preços de produtos importados;

iii) Interrupções e atrasos nas cadeias de suprimentos globais, como petróleo, GNL e fertilizantes.

O efeito da imprevisibilidade

O fim do conflito entre Israel e Irã permanece imprevisível, e seus efeitos econômicos podem se intensificar caso a guerra seja declarada abertamente, e envolva potências globais como EUA, China, Rússia, RU e França. A instabilidade no Oriente Médio já impacta mercados financeiros, cadeias de suprimentos e preços de commodities energéticas, com risco crescente de recessão global.

Além dos impactos econômicos, há preocupações crescentes sobre uma crise humanitária e o deslocamento forçado de populações em território israelense e iraniano. O número de vítimas civis continua a aumentar, e a destruição de infraestrutura agrava o cenário de instabilidade. Caso o conflito se prolongue e torne uma guerra aberta, os efeitos econômicos poderão ser ainda mais devastadores.

Crise humanitária

O conflito entre Israel e Irã já causou mais de 1.500 feridos no Irã devido aos ataques aéreos de caças e drones israelenses e mais de 300 feridos em Israel após os ataques iranianos, com drones, mísseis balísticos de longo alcance e mísseis hipersônicos, número bem menor do que o Irã, devido ao Iron Dome, o Arrow 3 e os bunkers nas cidades israelenses. Infelizmente, a maioria das 248 vítimas fatais são civis, mulheres e crianças, o que intensifica as preocupações sobre a grave crise humanitária.

O Iron Dome tem sido essencial para a segurança de Israel, protegendo sua população de 9,7 milhões de habitantes contra os mais de 400 mísseis iranianos lançados desde o início do conflito em 12 de junho de 2025. O sistema de defesa tem uma taxa de interceptação de cerca de 90%, mas seu custo é extremamente alto, chegando a US$ 285 milhões por noite. Com seis dias de conflito, os gastos acumulados apenas com o Iron Dome já ultrapassam US$ 1,7 bilhão.

Ameaças de todos os lados

O líder supremo da República Islâmica do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, ameaçou o Estado de Israel, nesta quarta-feira (18/06): “Hoje à noite, uma grande surpresa acontecerá, que o mundo lembrará por séculos”.

Muitos judeus estão deixando Israel, e escolhendo Melbourne, na Austrália, como seu novo lar. Milhares de iranianos estão fugindo de Teerã, a capital do Irã, devido à séria advertência do presidente americano Donald Trump: “Todos devem evacuar Teerã imediatamente!”. Estradas iranianas estão congestionadas, supermercados lotados e há relatos de pânico entre os moradores de Teerã que não conseguiram fugir da capital iraniana.

O poder das armas nucleares

É preciso revelar também que o Estado de Israel possui um arsenal nuclear estimado em 90 ogivas atômicas. No entanto, a pequena nação asiática com o 17º maior PIB per capita do mundo (US$ 57,8 mil), liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, nunca confirmou oficialmente o número exato dessas armas nucleares. Além disso, Israel não é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), o que gera preocupações internacionais sobre sua real capacidade nuclear.

O clima de tensão aumentou na Ásia, porque, recentemente, o Paquistão negou que retaliaria Israel com armas nucleares em caso de ataque nucelar ao Irã. O ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, afirmou que o país muçulmano segue todas as normas internacionais e que sua capacidade nuclear é para defesa nacional, não para envolvimento em conflitos externos, sendo rival e vizinho da Índia. Entretanto, autoridades iranianas alegam que o aliado Paquistão teria prometido intervir militarmente caso Israel utilizasse uma bomba atômica contra Teerã.

Concluindo, o conflito entre Israel e Irã continua intenso, com ataques a infraestruturas militares, nucleares, petrolíferas e civis, aumentando o número de mortos e de feridos a cada dia. A instabilidade no Oriente Médio poderá agravar ainda mais a inflação mundial, pressionar os custos logísticos internacionais e comprometer seriamente a economia mundial e a segurança global.

Hoje, só nos resta sonhar, clamar e agir em prol da Paz! Shalom! Peace! Paix! Mir! Pace!

 

 

 

 

(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, e autor de 18 e-books de Economia, entre eles, A IMPORTÂNCIA DO CANADÁ NO G7 E G20 (2024): https://paulogalvaojunior.com.br/canada/. Apresentador do Programa Economia em Alta ESPECIAL, O Conflito Israel versus Irã e seus impactos na economia mundial: https://www.youtube.com/live/-NW2bdFXprQ. WhatsApp para entrevistas e palestras sobre o G7, G20, BRICS e Conflito Israel versus Irã: +55 (83) 98122-7221.
(**) Os conteúdos dos colunistas e articulistas publicados no site da Revista Nordeste (RNE) são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da RNE.
Curta e compartilhe:

Redacao RNE

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *