Sessenta e sete anos depois da primeira conquista de um título mundial de futebol, na Suécia, a Seleção Brasileira passa agora a ser comandada por um treinador italiano, de renome internacional, com a difícil missão de resgatar a credibilidade e o respeito que um dia mereceu de todos os demais países que praticam esse esporte.
O primeiro treinador a apresentar ao mundo o talento e a criatividade do jogador brasileiro foi Vicente Ítalo Feola, que nasceu em setembro de 1909 e morreu aos 66 anos em 1975. Dirigiu a seleção em 74 jogos, com 54 vitórias, 12 empates e apenas 8 derrotas.
Trajetória mais do que positiva para um treinador que entrou para a história colocando o Brasil na vitrine do futebol mundial. Para os que gostam de estatística, vale lembrar que Feola, quando ainda treinador do São Paulo, dirigiu a equipe em 532 jogos, recorde ainda não batido até hoje.
Saudosismo à parte, carnaval e futebol mexem com a estrutura emocional do País, tiram o sono dos mais afoitos e, não raro, excitam as massas a reações incontroláveis. Daí o real interesse e curiosidade sobre quem é, de onde veio e o que trará de novo ao nosso futebol esse emissário de além Mar, tão badalado e exaltado no mundo da bola.
O novo comandante da Seleção Brasileira traz no currículo uma invejável lista de conquistas, com passagens por algumas das maiores equipes do futebol mundial. Entre elas, Parma, Juventus, Chelsea, Paris Saint-Germain, Bayern de Munique e Real Madrid. Nessa vitoriosa maratona acumulou resultados positivos, jamais alcançados por outro treinador.
Seu aproveitamento no comando do Real Madrid, por exemplo, foi de 91% segundo dados oficiais. Dirigindo o Bayern de Munique chegou a 76% de bons resultados e no Chelsea alcançou a bela cifra de 67% de índice positivo em todas as competições que disputou. Nesse calendário vitorioso estão relacionados campeonatos regionais, Copa da UEFA e todas as disputas que anualmente participam as equipes européias. Liderou mais de dez equipes campeãs, e em nenhuma delas alcançou números inferiores a 60% de aproveitamento.
Carlo Michelangelo Ancelotti, de 65 anos, é o nome dele, e mesmo ainda sem mostrar serviço junto a seleção do Brasil, para alguns está sendo apontado como salvador da pátria, tal a descrença de todos com o nosso futebol. Ancelotti, vale lembrar, não é o primeiro treinador estrangeiro a assumir o comando da Seleção, e tenta dar a ela vitórias e conquistas.
Em circunstâncias diferentes, e em nenhuma delas em cenários positivos, três outros treinadores ocuparam o cargo de comando da equipe, mesmo que por curtíssimo tempo. Em 1925 o Uruguaio Ramón Platero foi indicado pela antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos) e assumiu o cargo.
Em 1944 o português João Gomes de Lima, também conhecido como Joreca, com passagens por Flamengo, Vasco e outros clubes, assumiu a Seleção em torneios Sul Americanos. Em 7 de setembro de 1965, o Palmeiras, representando a Seleção Brasileira e dirigido pelo argentino Filpo Nunes, venceu o Uruguai em amistoso em Minas Gerais por três a zero.
A decisão da CBF, ao trazer para o comando da Seleção um treinador de um outro País, atesta com todas as letras a dificuldade, ou a fragilidade do nosso futebol, no quesito profissionalismo competente. Ou, como querem alguns, absoluta ignorância e falta de cuidado ao investir na real necessidade de renovação.
Sabidamente, seriedade, competência e zelo apurado no que diz respeito a gestão do nosso futebol, nunca estiveram na pauta das atividades prioritárias da entidade.
A vida pregressa de alguns de seus ex-dirigentes, por mais de uma vez, frequentou páginas policiais, com registros nada republicanos e uma escancarada submissão política de conchavos e acertos, sempre em desacordo com a opinião pública. Uma pena que o legado seja esse, gostem ou não aqueles que transitam no meio.
O técnico Zagallo esteve a frente da seleção em mais de uma centena de jogos, com um índice de aproveitamento de 78%. Esse saldo positivo fez com que muitos tivessem que engolir, mesmo a contragosto. A Seleção, mesmo em momentos de baixo rendimento e expondo visível fragilidade, sempre estará na mira de uma vigilância severa e afetiva do povo brasileiro.
Do novo treinador, o torcedor
espera astúcia, sabedoria técnica e argumentos que justifiquem as altas cifras já confirmadas em contratos. Há quem diga, com exagero e ironia, que o salário e as benesses que a CBF destinará ao novo comandante da seleção, superam o orçamento de algumas prefeituras do interior do País.
Tal investimento representa, sem rodeios, a real preocupação da CBF em resgatar a credibilidade do futebol brasileiro, que em épocas passadas foi considerado o melhor do mundo. Hoje, certamente, está bem distante dessa realidade. Ancelotti também sabe disso.
José Natal
Jornalista

