Por Walter Santos
Fato novo na conjuntura com a análise minuciosa e contundente da professora doutora da UFPB, Maria Luiza Alencar Feitosa, questionando situações tratadas como “loucuras sociais” a merecer tratamento urgente e diferenciado como tratar bebês de borracha na atualidade. Ela comenta a seguir:
“Pensando que já tinha visto todas as bizarrices nesta vida, me deparo com a polêmica dos bebês reborn. O tempo está tão estranho e doente que as pessoas preferem interagir e direcionar o seu amor para bebês de borracha e para pets do que para o seu próprio semelhante.
Muito fácil, afinal, eles não retrucam! Com eles, não há diálogo. Como diz o filósofo Byung-Chul Han, estamos diante da negação da negatividade do outro. As redes sociais levaram as pessoas a viver dentro de bolhas de semelhança tóxica, de pseudo-positividade, sem interlocução e sem questionamentos.
Até os relacionamentos da atualidade estão se resumindo à virtualidade, pessoas apaixonadas pela gentileza e pela “profundidade” vernacular do ChatGPT, bonecas infláveis e pênis de borracha para a satisfação sexual. Se ficasse na esfera do prazer individual, tudo bem – a questão é mais séria porque gera sentimentos, como “amor”, apego, cuidado, paixão pelo não-humano.
É a negação do outro como ser humano. As indústrias que mais poluem e crescem no planeta são as têxteis, cosméticos e pets. O amor pelos animais se transformou na produção em série de bichinhos expostos em gaiolas de lojas comercais que serão adotados como bebês e permanecerão infantizados vida afora, mesmo quando forem pets adultos ou idosos. “Veterinários ganham fortunas com a medicina oncológica, pois o ser humano, não satisfeito de se envenenar e envenenar o planeta com produtos cancerígenos, está a envenenar seus pets, tratando-os como “filhinhos” e gerando neles infantilismo, câncer e outras “doenças de humanos”. É o que lembra a artista plástica Claudia Verônica.
Vemos diariamente o massacre da guerra e da fome no mundo, no caso da Palestina, há um extermínio em curso. Nada disso – a dor do outro, o abandono, a carência material e psicológica -, gera tristeza, compaixão ou misericórdia. O sentimento humano, no sentido próprio de humanidade, está sendo esterilizado e posto em uma estante inacessível.
O projeto é nos desumanizar, nos robotizar. Este é o estágio atual do capitalismo digital que nos tange para o mundo fictício. Pessoas plásticas, se fantasiando de bonecas e bonecos; uma moda estética grotesca de preenchimentos corporais e histérica perfeição – perucas, cílios, bocas, unhas; nesse mundo de estética falsa, pouco ético e absolutamente surreal, as pessoas desumanizadas e feridas na sua condição basilar de interação humana, preferem relacionar-se intimamamente com bonecos e animais (somente aqueles que elas transformam em crianças).
Nesse percurso em direção ao nada, os problemas reais vão sendo negados. Diante de tantos problemas sociais, da destruição acelerada do planeta, da fome humana e do sofrimento animal, não há revolta ou indignação. Mas haverá revolta contra o SUS qdo este se recusar a cuidar dos bebês de plástico, aliás já estão tumultuando o Judiciário com demandas irreais asim como entulham o Legistivo com projetos de lei insanos – como o da deputada Rosângela Moro, que postula, pelo SUS, o atendimento psicológico para pessoas em sofrimento mental causado pelo relacionamento com os “bebês reborn“. Penso que os pais dos bebês de silicone, que contratam plano de saúde para seus filhotes, podem contratar também para si.
O problema é que a realidade real e a falsa realidade tendem a se friccionar de vez em quando, como dito acima. Aí o Estado social, em franca negação pelas pessoas que trocam o ser político pelo ser moral, estético ou fundamentalista religioso, é chamado a resolver. Ou seja, precisamos do Estado e da política.
Cuidemos para não enlouquecer de vez!

