Novo modelo para aquecer ferrovias no Brasil

Em entrevista à NORDESTE, em sua nova edição 218, especialistas apontam ganhos em eficiência logística, competitividade, ampliação de capital de investimento e sustentabilidade ambiental

 

 

 

Por Luciana Leão

 

 

A recente aprovação pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) do primeiro contrato de Investidor Associado marca um avanço significativo na infraestrutura ferroviária brasileira. O modelo permite que empresas privadas invistam diretamente em ferrovias concedidas, promovendo eficiência logística e ampliando o transporte de cargas no país.

O primeiro contrato é entre a Ferrovia Transnordestina Logística (FTL), que administra e opera um trecho ferroviário no Nordeste, e o Temape (Terminais Marítimos de Pernambuco), que investirá R$ 40 milhões para construir um terminal ferroviário de combustíveis em Teresina (PI), dentro da malha da FTL.

 

Como funciona o Investidor Associado?

 

Diferente das tradicionais concessões ferroviárias, nas quais o governo delega à iniciativa privada a operação e manutenção de uma ferrovia por um período determinado, o Investidor Associado permite que outras empresas privadas financiem melhorias e expansões sem necessidade de nova concessão. A concessionária mantém a operação da ferrovia, mas recebe capital externo para ampliar sua capacidade.

O investimento do Temape exemplifica essa nova dinâmica, viabilizando um terminal ferroviário essencial para o transporte de combustíveis na região.

 

Mais flexibilidade para o setor

 

Heitor Freire vê aprovação do novo modelo como uma “importante oportunidade” para o setor ferroviário no País

 

Em entrevista à NORDESTE , o diretor de Fundos, Incentivos e de Atração de Investimentos da Sudene, Heitor Freire, avalia que a aprovação pela ANTT dessa modalidade abre uma “importante oportunidade para todas as ferrovias brasileiras e seus respectivos usuários”, disse Freire.

No caso da FTL, que integra o Grupo CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), a empresa está em processo de renovação de concessão junto ao Ministério dos Transportes e à ANTT.

“Posteriormente, com a renovação e aprovação do TCU, será possível sua participação operacional com essa modalidade de Investidor Associado ”, declara.

Para o especialista Daniel Mota, professor da Fundação Vanzolini e coordenador do CILIP – Centro de Inovação em Logística e Infraestrutura Portuária da Universidade de São Paulo, o modelo traz maior flexibilidade à administração ferroviária, chegando em um momento oportuno para promover o setor, onde o “Brasil é muito carente e subdesenvolvido”.

Mota destaca que a ampliação do modal ferroviário gera riqueza ao permitir o transporte de grandes volumes em menor tempo e com custos reduzidos. Essa eficiência resulta em um transporte mais econômico e competitivo, beneficiando cargas de diversos tipos, como produtos gerais, granel, minério e siderúrgicos.

 

Impactos ambientais e econômicos positivos

 

Daniel Mota lembra que expansão ferroviário tem um impacto positivo na questão ambiental

A expansão ferroviária impulsiona a geração de empregos, tanto na construção quanto na operação, além de reduzir custos e aumentar a oferta de serviços. “A operação ferroviária, ao gerar empregos diretos e indiretos, contribui para a competitividade do setor e a criação de novas oportunidades de trabalho”, pontua Mota.

Outro benefício relevante é a menor emissão de CO₂ por tonelada transportada em comparação ao modal rodoviário, tornando o transporte ferroviário uma alternativa mais sustentável. Segundo estudos do setor, a emissão de gases de efeito estufa em ferrovias pode ser até 75% menor que a do transporte rodoviário para a mesma carga.

Além disso, a infraestrutura ferroviária reduz o tráfego de caminhões, diminuindo impactos ambientais e riscos de acidentes com cargas perigosas, como combustíveis.

Com a ampliação da malha ferroviária, setores estratégicos como agronegócio, combustíveis e siderurgia poderão investir diretamente na infraestrutura que utilizam, reduzindo custos operacionais e otimizando ativos.

 

Primeiro contrato no Brasil: Temape e FTL

 

O primeiro contrato de Investidor Associado aprovado pela ANTT viabiliza a construção de um terminal de granéis líquidos em Teresina (PI), essencial para o transporte de combustíveis na região. O investimento, financiado pelo Temape, permitirá a movimentação de 140 mil toneladas anuais e incluirá 15 novas plataformas de descarregamento.

Para o diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio em comunicado oficial à imprensa, a entrada do Temape como Investidora Associada representa um avanço significativo no setor ferroviário e resultará em forte aumento na movimentação de combustíveis no Piauí, principalmente no trecho concedido à FTL, responsável pela operação da Malha 1, da Transnordestina.

“Entre os benefícios do projeto, podemos destacar maior eficiência operacional, permitindo o transporte de grandes volumes em uma única viagem, redução de custos logísticos por tonelada transportada, aumento dos níveis de segurança, reduzindo riscos de acidentes e derramamentos e, além de ser totalmente sustentável, redução de emissões de CO2 por tonelada transportada”, explica Sampaio.

A construção está prevista para começar em 2025, ser concluída em 2027 e entrar em operação plena em 2028, sujeita à obtenção das licenças necessárias da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A infraestrutura incluirá recepção ferroviária e rodoviária, armazenagem de produtos, estrutura de embarque, laboratório de análises, subestação, pátios de bombeamento e caminhões. Além de um moderno sistema de proteção contra incêndio e automação de processos, também está prevista a construção de um prédio administrativo.

 

Perspectivas para o futuro

 

 

O modelo de Investidor Associado pode atrair novos investidores para a modernização e expansão da infraestrutura ferroviária no Brasil.

Grandes exportadores de grãos, minérios e combustíveis terão a oportunidade de financiar diretamente a logística que utilizam, fortalecendo a competitividade brasileira no comércio global. A expectativa é que, nos próximos anos, essa abordagem se torne uma alternativa viável para diversos setores, promovendo um transporte mais eficiente e sustentável.

Daniel Mota aponta que novas oportunidades de investimento podem surgir nos terminais portuários do Norte e Nordeste, fortalecendo a interconexão entre modais logísticos.

“Podemos estar falando de Suape (PE), Itaqui (MA), Vila do Conde (PA), Pecém (CE) e Parnaíba (PI) etc. Não apenas a Transnordestina, mas outras ferrovias podem se beneficiar desse modelo, pois qualquer operador logístico busca eficiência, redução de custos e otimização de ativos. Atraindo mais investidores, ampliamos as possibilidades para o setor”, conclui.

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Luciana Leão

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