Por Luciana Leão
Em um momento em que o consumo de chocolate se intensifica com a chegada da Páscoa, produtores de cacau do Sul da Bahia terão a oportunidade de aprimorar técnicas de beneficiamento da amêndoa. O Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) realizará, nos dias 17, 18 e 21 de março, a Oficina Cacau Fino, na Fazenda Santo Antônio, em Barro Preto (BA).
A capacitação é voltada para produtores e ativadores de crédito das cooperativas Coopfesba, Coopermata e Coopatan, integrantes da Rede de Ativadores de Crédito Socioambiental. O objetivo é fortalecer capacidades locais e formar multiplicadores de boas práticas no beneficiamento de cacau de qualidade superior.
O declínio da produção de cacau e os desafios atuais
O Brasil já foi o maior produtor mundial de cacau, com destaque para o Sul da Bahia, onde o cultivo ocorre sob a sombra da Mata Atlântica, no sistema agroflorestal Cabruca. Esse modelo tradicional mantém árvores nativas e permite que o cacau se desenvolva à sombra, promovendo a conservação da biodiversidade e reduzindo o impacto ambiental. Apesar de sustentável, o sistema enfrenta desafios como baixa produtividade e envelhecimento das lavouras.
A partir da década de 1980, fatores como mudanças climáticas, doenças fitossanitárias, oscilações de preços, limitações tecnológicas e dificuldades de acesso ao crédito levaram à crise do setor, reduzindo drasticamente a produção na região. Atualmente, essa realidade também afeta o mercado global, com uma baixa oferta de cacau em meio ao crescimento da demanda, o que levou o preço da amêndoa a ultrapassar US$ 10 mil por tonelada, um recorde histórico.
“Investir em boas práticas de cultivo e beneficiamento pode aumentar a valorização da produção e garantir acesso a mercados que pagam preços mais altos pelo cacau fino. Além de melhorar a produtividade, os agricultores agregam valor ao produto e aumentam sua renda”, destaca Paula Pannain, mentora de crédito da Conexsus.
No Brasil, a produção está concentrada nos estados da Bahia (maior produtor), Pará (crescendo rapidamente), Espírito Santo, Rondônia e Amazonas. A Bahia tem tradição no cultivo, mas o Pará tem se destacado devido a investimentos na produtividade e sustentabilidade.
Indicação Geográfica

O cacau do sul da Bahia conta com o reconhecimento da Indicação Geográfica – IP Cacau Sul da Bahia, que abrange uma área de 61.460 km2, 7 territórios (Litoral Sul, Baixo Sul, Extremo Sul, Vale do Jiquiriça, Costa do Descobrimento, Médio Rio de Contas e Médio Sudoeste da Bahia), contemplando 83 municípios.
Dentre os avanços e melhorias decorrentes da IP Cacau Sul da Bahia, já é possível a rastreabilidade, via QR Code, de todo o processo de produção de cacau, utilizando tecnologia blockchain e outros avanços tecnológicos estão contribuindo para a qualidade das amêndoas de cacau, resultando na criação de um polo de chocolates finos no sul da Bahia, que conquistam mercados no Brasil e no Exterior.
O estado da Bahia possui uma área plantada de cacau de aproximadamente 439 mil hectares no sul da Bahia e cerca de 60% desta área é cultivada por meio do sistema cabruca. São 263 mil hectares que se apresentam como como solução às mudanças climáticas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA.
A atuação da Conexsus na cadeia do cacau
A oficina integra o programa CrediAmbiental, da Conexsus, e o projeto CocoaAction, voltado para a sustentabilidade da produção de cacau. A capacitação contará com facilitadores da Consultoria BIOCAU Serviços, além de parceiros do Serviço de Informação ao Cidadão (CIC) e Bahia Cacau.
No Sul da Bahia e no Pará, a Conexsus utiliza o manejo do cacau como ferramenta para a conservação de biomas e o fortalecimento de negócios comunitários.
Em 2024, a organização consolidou sua atuação na cadeia do cacau ao estabelecer seis novas parcerias, inscrever 1.001 famílias no cadastro socioprodutivo e mapear 27.511 hectares de áreas produtivas.
Além disso, mobilizou R$ 7,2 milhões em crédito rural, viabilizou R$ 1,2 milhão em financiamento para negócios comunitários e formalizou 132 contratos de crédito, impulsionando o desenvolvimento sustentável na região.

